Tolerância

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

Tolerância não significa aceitar o que se tolera

(Mahatma Gandhi)

O termo tem origem na palavra tolerare, que significa suportar pacientemente. Mas será possível aceitar que a paciência suporte a indiferença? Poder-se-á tolerar que todas as atitudes sejam consideradas legítimas? Poderemos incorrer num relativismo “tolerante”, onde a verdade e a mentira se equivalem? Talvez se deva considerar uma tolerância mais próxima de algo que dá pelo nome de… aceitação. Vejamos.

Até onde devemos aceitar a diferença? Poderá uma cultura sobreviver se tolerar subculturas que defendam uma cultura de oposição? Que diferença haverá, por exemplo, entre tolerar e aceitar que alguém seja homossexual, ateu, ou adepto de um time, que compete com o nosso time…? Que diferença haverá entre tolerar a passividade de um educador perante atos inaceitáveis e aceitar que se deva colocar limites a uma “ditadura da infância”, ao colapso ético face às exigências e reivindicações dos infantes? A tolerância confundida com a permissividade não permitirá que os tolerados imponham as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre direitos e deveres?

Será oportuno saber como alguns autores se posicionam perante essa tensão entre tolerar e aceitar. Edmund Burke avisa-nos de que existe um limite em que a tolerância deixa de ser virtude. Jaime Luciano Balmes diz-nos que não é tolerante quem tolera a intolerância. Karl Popper sintetiza a tensão numa frase: “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância”. E dois dos maiores mestres portugueses do século XX, assim se pronunciam: “Por que tolerar? Parece-me ainda pior do que perseguir. No perseguir há um reconhecimento do valor” (Agostinho da Silva); e “Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro” (José Saramago). Que me seja perdoada a presunção, mas me atreverei a fazer eco das palavras do saudoso escritor, para contextualizar a tensão entre tolerância e aceitação no contexto escolar.

É comum escutar a expressão educação democrática. Correndo risco de suscitar alguma polêmica, arrisco perguntar: As decisões tomadas pelo corpo de educadores de uma escola deverão ser tomadas por maioria (democrática), ou por consenso? A minoria a quem foi Imposta uma decisão democrática respeitará (aceitará) tal decisão, cumprirá aquilo que foi decidido? Dito de outro modo: as decisões deverão ser pautadas na tolerância, ou na aceitação?

Os brasileiros parecem tender à tolerância. Talvez por ser mais cômodo ir ao aeroporto, xingar o time que perdeu uma partida de futebol, do que manifestar na rua, na praça, em todo o lugar, a não aceitação do enriquecimento ilícito, da corrupção, de crimes contra o erário público. É mais fácil do que intervir quando um energúmeno joga uma lata vazia pela janela do carro, ou quando uma justiça obtusa permite que o político corrupto beneficie de impunidade. O péssimo exemplo de significativa parte da classe política influencia o caráter do povo, polui as mentes com valores egoístas. O povo brasileiro sofre de uma bovina tolerância face aos atos imorais dos indigentes morais, que conspurcam a nobre arte de fazer política.

Li (já não sei onde) que a ética assemelha-se a uma reta: a menor distância entre os pontos A e B, onde A é o Ideal e B, a Ação. Deveremos tolerar a incoerência entre o pensar e o fazer, ou aceitar a necessidade de fincar barreiras perante procedimentos moralmente contraditórios?

Anúncios

Carnaval de rua

                                                                                                                                        shutterstock_42967429 ALTA

Crédito imagem: Truhelen/Shutterstock

O Carnaval é uma importante manifestação cultural brasileira. Entre sambas-enredo, frevos, maracatus, afoxés, toadas, axés e marchinhas, diferentes ritmos nos convidam para a alegria coletiva e a brincadeira na rua.

 Primeiras ideias:

O carnaval de rua, embalado por marchinhas antigas ou criadas pelos compositores dos blocos, fica mais animado com a presença dos bonecões, herança dos imigrantes portugueses que já realizavam festas religiosas com eles na Europa, desde o Renascimento. No Brasil, as cidades de Olinda/PE, Salvador/BA, São Luís do Paraitinga/SP, São João Nepomuceno/MG, entre outras, apresentam seus tradicionais bonecos gigantes durante o Carnaval e nas festas religiosas. Com variações regionais, as esculturas com mais de três metros de altura sempre desfilam acompanhadas dos cabeções − fantasias com cabeças grandes e desproporcionais − ambos escoltados por bandas de Carnaval e instrumentos de percussão. Confeccionadas pelos próprios foliões, com massa de jornal (papel machê), cola, tintas, papéis e tecidos coloridos e uma estrutura de sustentação, as figuras ganham, por meio da imaginação popular, vida como personagens ilustres da cidade e da cultura local. Assim, o alegre cortejo é seguido de perto pelos foliões. Pergunte aos alunos se já participaram de um desfile como esse e o que conhecem sobre o Carnaval no Brasil. Anote as respostas para utilizá-las em momento oportuno. Durante a conversa, valorize as manifestações regionais mais frequentes em sua cidade. Se possível, faça a audição de ritmos distintos e apresente imagens variadas dessas manifestações populares.

 Refletindo sobre valores:

Enquanto manifestação cultural, o Carnaval carrega em si muito da nossa história. Para além dos clichês valorizados pela mídia, a festa revela nossa multiplicidade étnica, religiosa e social. Transmitido às novas gerações, tanto pela tradição oral, quanto no engajado trabalho em equipe entre pessoas mais experientes e as que desejam aprender, o festejo popular possibilita a construção de parcerias para celebrar – com formas, texturas, cores, movimento e ritmo, a diversidade cultural que nos une. Educar para a sensibilidade ética e estética envolvidas nessa manifestação cultural, assim como em tantas outras, é papel da escola. Professor(a), encaminhe as reflexões para a valorização das atitudes de respeito e preservação da cultura brasileira.

 Atividade coletiva:

Que tal colocar o “bloco na rua”? Pesquise em jornais, revistas e na internet, imagens e trechos de filmes do desfile dos bonecos gigantes no Carnaval de diferentes cidades. Selecione alguns para apresentar na sala de aula, explorando detalhes de caracterização dos personagens e os comentários dos alunos sobre o cortejo. Verifique se esta manifestação popular é presente na sua cidade. Em caso afirmativo, faça contato com o grupo e convide-o para visitar a escola.

Consulte seus alunos para identificar quais personagens podem ser retratados e/ou homenageados como “cabeção”. Dependendo da faixa etária, a produção do cabeção pode ser feita em pequenos grupos, em que cada aluno faz o seu ou todos realizam juntos uma peça única. Prepare com eles o esboço do personagem.

Separe o material, organize a sala e distribua as tarefas no grupo, supervisionando a elaboração das peças. Incentive a originalidade das soluções e o trabalho em equipe. Você vai precisar de saco de papel pardo ou caixa de papelão leve para sobrepor à cabeça com folga; papéis coloridos, tinta guache, pincéis, tesoura, cola etc. para caracterizar os cabeções; retalhos de tecido de chita ou outro bem colorido para as roupas ou adereços e instrumentos musicais de percussão prontos ou inventados pelos alunos.

Organize o local e o horário do cortejo na escola e, se possível, convide as famílias e leve a festa para as ruas do entorno da escola. Cuide com atenção da trilha sonora, resgatando as marchinhas dos antigos Carnavais, como por exemplo: A jardineira, Alalaô, Aurora, Cidade Maravilhosa, Me dá um dinheiro aí, Ô Abre alas, entre outras.

Convide os alunos para tocar a percussão. Vale a pena realizar um ensaio antes. Distribua as máscaras e os outros adereços aos alunos. Aproveite esta oportunidade para fazer uma integração com outras turmas e disciplinas, com as famílias e com as crianças neste cortejo saudável de foliões!

 Sistematizando:

Questione os alunos quanto às ideias iniciais sobre manifestação cultural, recorrendo às primeiras anotações da turma. Em seguida, incentive os comentários do que aprenderam sobre a experiência de organizar, preparar e vivenciar uma festa coletiva com bonecões. Encaminhe as reflexões para a valorização das atitudes de respeito e compreensão da cultura como expressão de um povo, bem como, para a possibilidade concreta de vivenciar momentos de alegria coletiva e saudável.

 Saiba mais

Sites

 Bonecões da cidade de Atibaia/SP –< http://www.atibaiamania.com.br/festas/folia/index.asp>

 Bonecos de Olinda – http://www.bonecosgigantesdeolinda.com.br/

 CD Carnaval − http://www.palavracantada.com.br/

Volta às aulas

Volta às aulas

Sentir-se acolhido por todos na escola e na sala de aula faz a diferença! Este é um convite para cuidar com delicadeza do [con]tato com sua turma.

 Primeiras ideias:

Todo início de ano letivo chega carregado de expectativas pessoais, subjetividades, afetos, devaneios, visões de mundo, impaciência, maturação, reflexão, sofrimento, desejos para o futuro e a possibilidade concreta de inventar caminhos e fazer escolhas coerentes e sensíveis. Essa sensibilidade pode ser educada para perceber e considerar as necessidades do outro. Questione a turma sobre as sutilezas do ato de acolher, sem atitudes paternalistas ou superprotetoras. Permita que os alunos apresentem exemplos e situações vividas por eles. Incentive perguntas reflexivas, como: quais foram as motivações e como se sentiram na situação? Anote na lousa as respostas, destacando os aspectos atitudinais que motivaram tais ações.

 Refletindo sobre valores:

Há muitas acepções para a palavra acolhimento: maneira de receber ou de ser recebido; consideração; abrigo e hospitalidade; local seguro, refúgio etc. É sempre uma via de mão dupla! Afinal, quem acolhe também é acolhido. Nas relações interpessoais acolhemos as diferenças e as semelhanças, os afetos e os pensamentos. É curioso constatar que a percepção humana de si permanece incompleta se não puder descobrir como cada um de nós é o outro do “outro”. Como diz o poeta Arnaldo Antunes, o corpo tem alguém como recheio. E quem é esse alguém na sala de aula? De quais recheios são constituídos: sabores, aromas, imagens, cores, sonoridades, movimentos, formas, texturas, entre outros? Um universo de experiências a considerar no corpo-recipiente, que ao mesmo tempo contém e ocupa espaços. Professor(a), encaminhe as reflexões para a valorização das atitudes de acolhimento na turma.

 É fundamental!

Educar a sensibilidade é poder encontrar os meios para identificar e extrair das coisas suas lições. Antes de explicar, temos que aprender a sentir.

 Atividade coletiva:

O retorno à escola pode ser uma boa oportunidade para acolher as descobertas vivenciadas pela turma durante as férias. Provavelmente, todos querem contar as novidades. Convide-os a elaborar cartões-postais, registrando as cenas e as histórias que gostariam de narrar aos amigos.  Aproveite para contar a história do cartão-postal e a importância que esse tipo de correspondência tem, desde o século XIX, para viajantes em férias. Segundo o site Wikipédia, “o cartão-postal é uma simplificação da carta. Trata-se de um pequeno retângulo de papelão fino, com a intenção de circular pelo Correio sem envelope, tendo uma das faces para o endereço do destinatário, postagem do selo, mensagem do remetente e, na outra, alguma imagem”.

Providencie os cartões recortando-os em papel mais encorpado e deixe que a turma relembre os melhores momentos das férias, entre desenhos coloridos e pequenos textos. Se possível, apresente alguns postais encontrados em banca de jornal. Ao final, cada aluno apresenta, na roda de conversa, sua produção e conta com mais detalhes a experiência vivida. Incentive-os a ouvir com atenção, mantendo o respeito e a delicadeza da escuta para que todos se sintam acolhidos nesse momento. Se puder, amplie para uma exposição dos trabalhos e, quem sabe, a troca de postais entre outras turmas e escolas do bairro.

 Sistematizando

Resgate com os alunos os conceitos inicias sobre acolhimento, usando as anotações das primeiras ideias da turma. Em seguida, incentive os comentários sobre o quanto aprenderam com as experiências do outro. Direcione as reflexões para a construção de atitudes acolhedoras que tenham o objetivo de manter o bem-estar de todos.

Solidariedade

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

Sejamos irmãos porque estamos perdidos num pequeno planeta dos arredores de um sol suburbano de uma galáxia periférica de um mundo privado de centro.

(Edgar Morin)

 

Reflitamos sobre uma dura realidade: a quantidade de suicídios verificados neste nosso conturbado mundo equivale ao dobro do conjunto de mortos por guerra e fome. Quem se interroga sobre as causas de ambas as tragédias? Quem reflete sobre a ausência de uma ética apoiada na bondade e no apoio mútuo?

Naquela idade em que começamos a sentir a necessidade de dar sentido à vida (ou de sair dela…), é preciso que aconteça um feliz encontro com seres que ensinam que a verdadeira vida é um fraterno encontro. E há tantos desencontros nesta vida… Ao vivo, a televisão transmitia um atropelamento, numa rua de São Paulo: um corpo no meio da rua e condutores desviando as seus automóveis daquele obstáculo, alguns quase esmagando a inerte vítima do acidente. Na calçada, transeuntes alheios ao drama. Até o momento em que um deles faz sinal aos carros para que parem, vai até junto do corpo e pede para chamar uma ambulância. Interrogo-me: Este software humano será o único, ou poderemos aspirar a algo diferente? Quero crer na possibilidade de uma sociedade mais fraterna. E escuto o mestre Morin, que nos fala da necessidade de uma metamorfose, de uma reforma moral, lograda através de profundas mudanças no modo de educar e numa economia ecológica e solidária. Ele diz-nos que solidariedade é a palavra que pode modificar positivamente o futuro da humanidade. Curiosamente, Morin considera que o país com maiores possibilidades de liderar essa metamorfose solidária é o… Brasil.

Quando se substituirá um “ou” solitário pela coordenação do “e”, para que não haja moradores dos jardins versus zona leste, mas apenas brasileiros unidos numa tarefa comum? Por que não imitamos os japoneses, vítimas de um terrível tsunami? Ninguém furou fila para assistência médica. Compartilhou-se a falta de água, a fome, a tristeza, a morte. Não houve saques, mas solidariedade.

O presidente da assembleia da escola era um mocinho muito autocentrado. Nas reuniões, ele somente dava a palavra aos amigos e não assumia responsabilidade coletiva, em situações que justificavam essa atitude. Foi criticado por muitos dos alunos que o elegeram. Reagiu, dizendo que se demitiria. Então, as crianças tomaram uma decisão surpreendente: decidiram que o presidente deveria continuar no cargo. Mas que a condução das reuniões deveria ser participada pelos restantes membros da mesa da assembleia, de modo a ajudar o presidente a aprender a respeitar os outros e a respeitar-se.

Ao longo daquele ano letivo, o presidente, que não foi demitido, viveu múltiplas situações de ajuda mútua. No final da última assembleia daquele ano, deitou discurso, agradecendo aos colegas a oportunidade de ter aprendido a ser solidário. Em linguagem de gente jovem, disse, mais ou menos, isto: Que não se importava de não ser o primeiro, para que todos fossem os primeiros. Diz-nos o mestre Johann Heinrich Pestalozzi que a educação moral não deve ser trazida de fora para dentro da criança, mas deve ser uma consequência natural de uma vivência moral. A compreensão e a aceitação do outro resulta de uma aprendizagem da verdade, na arte de conviver. Desde tenra idade, a solidariedade na solidariedade se aprende.

Um menino sentou-se no colo de um idoso, que chorava a morte da sua esposa. O idoso susteve o choro e sorriu. Quando a mãe da criança lhe perguntou o que tinha dito ao velhinho, a criança respondeu: Nada. Só o ajudei a chorar.

O ensino domiciliar e a suposta educação moral

Silvia M. Gasparian Colello

Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

 

Como uma corrente em ascensão mundial, a opção de pais pela educação dos filhos em casa (homeschooling) vem ganhando adeptos no Brasil, passando de 250 para 1.000 casos de adesão familiar desde 2009[i]. Nos Estados Unidos, mais de 2 milhões de crianças e jovens foram deliberadamente retirados das escolas para serem educadas em casa. Ancorados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que defende o direito dos pais na escolha do gênero de instrução destinada a seus filhos, o ensino domiciliar contraria a legislação brasileira que, tanto na Lei de Diretrizes e Bases como no Estatuto da Criança e do Adolescente, impõe como dever dos pais a matrícula de crianças e jovens em instituições de ensino. No Código Penal considera-se que deixar de prover instrução é crime de abandono intelectual, razão que justifica processos movidos pela justiça brasileira contra nove famílias. Como reação ao conflito, algumas já planejam uma ação conjunta requerendo o direito de educar seus filhos e, assim, sair da situação de clandestinidade. Na mesma linha de reivindicação, corre na Câmara dos Deputados um projeto de lei para regulamentar a Educação Básica domiciliar.

No movimento do homeschooling as justificativas fundamentam-se em três argumentos: a ineficiência do ensino, a violência na vida escolar e o descaso em relação à Educação moral. O acordo com as críticas formuladas fortalece a nossa convicção sobre a necessidade de se valorizar a Educação, a profissão docente e os mecanismos de promoção da qualidade de ensino. Trata-se de uma luta pedagógica e política indispensável para a conquista de uma sociedade efetivamente democrática. Uma luta que, no entanto, só pode ser travada no contexto da participação social e não por alternativas individualistas, por vezes elitizadas, que ignoram a Educação como um direito coletivo. Por essa lógica, defender uma alternativa de Educação para o “meu filho” significa descomprometer-se com o futuro das próximas gerações.

Ao considerar internamente a proposta de ensino domiciliar, condenamos com veemência o pressuposto de que o projeto educativo de formação humana possa ser levado a cabo pela mera coleção de saberes adquiridos no contexto do isolamento e da superproteção familiar. A aprendizagem significativa não se faz pela assimilação de conteúdos dispostas nas redes de informação, mas antes pela capacidade de relacionar ideias, articular conhecimentos, sentimentos e posturas na constituição de si e de modos de ser em face da vida. Para tanto, importa que o indivíduo aprenda a interagir, argumentar e lidar com situações de conflito, assumindo a responsabilidade por suas decisões. Por isso, não há conhecimento independente de posturas, compromissos, desejos, valores e disponibilidades para a ação. Além disso, a resolução de problemas que se colocam nas inúmeras relações com os outros e com os objetos de conhecimento funcionam como um verdadeiro mote para o despertar de interesses, a ampliação de horizontes e a promoção do “aprender a aprender”.

Do ponto de vista da aprendizagem, é pouco provável que o contato com os pais-professores, por mais eruditos que sejam, possa superar as situações promovidas em classe por aproximadamente 85 professores especialistas que integram a trajetória da Educação Básica. É pouco provável também que, nos limites da própria casa, os jovens tenham a oportunidade de desenvolver competências e de colocar seus saberes a serviço da inserção social. Do ponto de vista socioafetivo, há que se condenar o reducionismo das relações e a sobreposição dos papeis de pais e professores. Tais condições tendem a limitar (sem os benefícios dos eventuais contrapontos) os parâmetros de referência e de experiência emocional justamente porque situam em apenas duas pessoas as relações de autoridade, hierarquia, afeto, admiração, submissão, respeito e obediência. Finalmente, do ponto de vista da formação humana, é impossível garantir na situação doméstica a pluralidade de experiências vividas na relação com os colegas: oportunidades de fazer e perder amigos, lidar com diferenças e tensões interpessoais, ganhar e perder, medir forças e contar com a cooperação do outro, brigar e se defender, desenvolver sentimentos de solidariedade, tolerância, empatia, cumplicidade…

A contradição explícita nesses argumentos torna-se mais insustentável em face dos dois princípios da Educação moral assumidos pelos adeptos do homeschooling: garantir aos filhos os valores pessoais e protegê-los dos maus exemplos da sociedade, tais como a sexualidade pré ou extra conjugal, a homossexualidade, a gravidez precoce e a violência. No que diz respeito ao primeiro, entendemos que a intenção deliberada de “reproduzir o eu no outro” configura a Educação como um processo de manipulação contrário ao desejável livre-arbítrio. Por sua vez, o princípio de proteção, balizado pelo falso pressuposto de que “esconder é evitar o perigo”, parece ir na contramão da formação ética e moral para a cidadania. Afinal, como preparar alguém para a vida e para o mundo com base em práticas apartadas da vida do mundo?

 

 

Responsabilidade

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa.

Saint-Exupéry

A “Declaração universal para a responsabilidade humana” nos diz que a humanidade, em toda sua diversidade, pertence ao mundo vivo e participa de sua evolução, que os seus destinos são inseparáveis. E propõe princípios gerais, que podem servir de base para um novo pacto social. Eis um exemplo: O exercício do poder só é legítimo quando serve o bem comum e quando é controlado por aqueles sobre os quais esse poder é exercido; a busca da prosperidade não pode ser desvinculada de uma partilha justa das riquezas; os saberes e as práticas só adquirem todo seu sentido quando são compartilhados e usados em prol da solidariedade, da justiça e da cultura da paz. Isso mesmo: é impossível ser feliz sozinho… Como estamos longe de concretizar os princípios da Declaração! Se um ser humano pode reivindicar seus direitos, deve, igualmente, manifestar consciência de que as suas responsabilidades são proporcionais aos direitos que reivindica, responsabilidade pelo outro, compromisso.

Observo carros ultrapassando a fila pelo acostamento, mentes “enfileiradas” segundo valores inculcados por práticas sociais nocivas. Vejo furar a fila, no banco, na repartição pública. Olho as inscrições pichadas nos banheiros de serviços públicos, manifestações de indigência mental, irresponsabilidade daqueles que ignoram que a assunção da dignidade humana também passa pela utilização de um banheiro.

Em uma cidade do interior, ao lado da placa de aviso de quebra-molas, vi uma placa repleta de “nãos”: Não urine na calçada / Não jogue lixo no chão /  Não faça sexo na praça / Não saia atirando. Uma universidade ofereceu viveiros de plantas a escolas da sua região, e somente uma dessas escolas manteve o seu viveiro… vivo. Nas restantes, as plantas secaram. Parece que as tarefas que exigem algum sacrifício são de responsabilidade dos outros. Se apontamos algo errado a um aluno, é provável que a resposta seja: Não fui eu!

A modernidade projetou-nos em uma ética individualista, na qual se pretende conservar a benesse da liberdade, ignorando a prática da responsabilidade, algo que lhe é inerente. A Educação formal fragilizou o conceito de ética, e as  transgressões são justificadas como regras do jogo para a sobrevivência. Urge, por isso, que estâncias educacionais, como as escolas, concretizem uma Educação integrada na pólis, o exercício da corresponsabilização na formação, uma formação estruturante da vida pessoal e comunitária. Como diria Augusto Boal, “cidadão não é aquele que vive em sociedade – é aquele que a transforma”. E outro mestre de nome Carlinhos nos diz que cada pessoa que passa pela nossa vida não nos deixa só, deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. A nossa vocação é cooperar, ser corresponsável. Ninguém existe sozinho, não há entidades vivas isoladas em si.

Se uma escola, no seu projeto político-pedagógico, assume, perante as famílias dos seus alunos, que deles farão seres responsáveis, deverá assegurar coerência entre o projeto escrito e a prática efetiva do projeto. Isto é, terá de encontrar modos de agir com responsabilidade. Muitas escolas o conseguem. Mas… e as outras? Visitei uma “Escola de Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação” (era assim que rezava a placa ostentada no pórtico de entrada). Havia muito lixo espalhado pelo chão dos corredores e nas salas de aula. Quando uma professora me perguntou por que razão as escolas não mudam, lacônico, eu respondi:

Olha à tua volta. E olha para o chão!

Qualidade de Vida

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

A aquisição desenfreada de brinquedos colaborou muito para que o ato de brincar ficasse em segundo plano. Resultado: as crianças, na atualidade, quando querem brincar não podem e quando podem não querem ou não sabem mais.

Rosely Sayão 

 

Certamente todo mundo conhece a história do pescador que, tendo acabado de fisgar três peixes, considerava ter alimento suficiente para a família naquele dia e ia para casa, saborear o dia, saborear a vida. Alguém, contando essa história, acrescentou que esse pescador era um “selvagem”. Mas será selvagem quem recusa ter a subjetividade industrializada, quem se mantém alheio aos ditames de uma economia predadora?

As lojas anunciam os presentes para o Dia das Crianças, para o Natal ou para assinalar outras efemérides apaziguadoras da febre consumista. As vitrines estão repletas de Barbies e laptops da Xuxa… Um pai oferece um celular de última geração à filha, que acaba de completar cinco anos de idade. Os jovens creem que, efetivamente, escolhem aquilo que usam a as crianças são manipuladas pela mídia. Quando chegará o dia em que todas as estações de televisão seguirão o exemplo daquela que aboliu comerciais nos intervalos de programas destinados à infância?

O Brasil ocupa o primeiro lugar entre todos os países do mundo que praticam cirurgia plástica para jovens. O jornal A Folha de São Paulo, de 7 de abril de 2011, noticiava a venda de sutiã com enchimento para meninas de seis anos! Uma cidade brasileira, símbolo do desenvolvimento econômico, contava, em 1960, com seis livrarias e uma academia de ginástica. Agora, tem mais de sessenta academias de ginástica e três livrarias. A mesma cidade registra um índice significativo de endividamento dos jovens. No auge do triunfo do hedonismo, a felicidade restringe-se à satisfação de desejos reciclados. Para os escravos do consumismo, renunciar a alguma coisa prazerosa parece significar perda de liberdade. Talvez nunca tivessem olhado os lírios do campo…

Ninguém nasce consumista. O consumismo é um hábito mental instalado. Onde está a Educação para um consumo crítico, inteligente? Quando se ensinará a comer, a consumir, quando se aprenderá a viver? Se não aprendermos na escola, onde e quando iremos aprender? Dar a conhecer os perigos do fast food é tão necessário quanto o saber colocar a pontuação correta em um texto. Desenvolver a sensibilidade do aluno, de modo a que ele seja sensível a uma suíte de Bach é tão necessário quanto saber fazer multiplicações por dois algarismos.

Os 20% mais ricos da população mundial consomem 86% de todos os serviços e produtos. Os 20% mais pobres consomem apenas 1,3%. Os Estados Unidos, que têm 5% da população mundial, utilizam 25% dos recursos mundiais. Poderemos ignorar que o crescimento econômico e social, da forma como acontece, promove o acúmulo de capital, de modo excludente e com impactos ambientais irreparáveis?

Urge que os educadores, frequentemente, se interroguem: qual será a relação entre Educação e vida sustentável? Como se poderá gerar responsabilidade, atitudes de autorreflexão e ações éticas nos alunos? Ensinamos os meus alunos a prevenir a obesidade mórbida ou a distinguir música de lixo sonoro? Ajudamos os jovens a se defenderem da febre consumista? Contribuímos para que tenham uma boa qualidade de vida? Para que os cidadãos tenham uma boa qualidade de vida, é preciso que sejam, verdadeiramente, cidadãos. Insistindo no óbvio: para que haja uma boa qualidade de vida, é necessária… uma boa Educação.

 

%d blogueiros gostam disto: