Arquivo da categoria: Reflexão

O blog está de cara nova!

01A_NovoBlog_EducaçãoEmValores_BlogAntigo

Anúncios

X da questão

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.

(Fernando Pessoa)

As conclusões de um estudo de caso talvez sintetizem a intenção deste dicionário. Comecemos por atribuir um nome fictício à escola: “Escola X”, por nela estar contido o… X da questão. É uma instituição da rede particular de ensino de uma cidade capital de estado. Acolhe alunos provenientes de famílias de classe média-alta. A Escola X dispõe de um belo projeto, no qual pontificam os valores inscritos na Lei de Diretrizes e Bases: autonomia, respeito, democraticidade… O projeto (escrito) contém abundantes citações de autores na moda, num discurso feito de pedagogia pseudo-humanista e de caricaturas de construtivismo. A prática é a negação daquilo que está escrito.

Acompanhados de pais que, conscientemente, aderiram ao projeto, alguns professores da Escola X tomaram a iniciativa de rever práticas e dar-lhes coerência. Crentes de que a autonomia é construída através da cooperação, perguntavam: como é possível desenvolver autonomia numa aula, quando se considera o educador como objeto, mero executante de determinações?

Foram instalando dispositivos, refletindo efeitos, trabalhando gratuitamente, fora do horário de aula, em equipe. Excelentes resultados não demoraram a surgir. Logo também apareceram torpes reações: colegas “professores” (não sei se poderei dar-lhes tão digno estatuto) sabotaram o trabalho dessa equipe. E todo o esforço se perdeu entre os caprichos do dono da Escola X e a conivência de serviçais “professores”, que, para não perderem o emprego, perderam a dignidade. “Professores”, cuja desonestidade intelectual foi recompensada com tablets oferecidos por um chefe que crê que o dinheiro pode comprar consciências.

Esse diretor, ignorante do que seja a pedagogia, tomou decisões carentes de fundamentação pedagógica, científica, ou de mero bom senso, e que feriam os valores consagrados no projeto da instituição. Decisões com obediência bovina comunicadas (ou, melhor dizendo, impostas) por uma coordenadora aos educadores. Herdeiro de uma cultura autoritária, o dono da Escola X impôs os seus caprichos, beneficiando a representação conservadora que muitas famílias-clientes têm do que seja uma escola e um projeto. Verifiquei, aliás, que esses pais conservadores ignoravam o conteúdo do projeto, nunca o leram!

Aquela escola transformou-se numa fraude. Conceitos como democraticidade, diálogo e responsabilidade ética continuam a enfeitar o projeto (escrito), enquanto os padrões de comportamento quotidiano refletem uma herança civilizatória calcada na dominação, no autoritarismo. Os educadores, que ousaram não concordar com absurdas decisões, não puderam fazer ouvir a sua voz. Foram intimidados, ostracisados e até mesmo despedidos. O trabalho sério de reflexão sobre as práticas, um acervo de rica documentação arquivada num computador, desapareceu misteriosamente. Ninguém soube indicar o seu paradeiro… E a Escola X continuou cativa de uma concepção de produção em série, do papaguear conteúdo, da parcelarização do conhecimento.

Alguns pais, os mais conscientes da situação, reagiram, exigiram o cumprimento do projeto. Porque não foram escutados, levaram os seus filhos para outras escolas. Denunciei as contradições, mas isso para nada serviu. Afastei-me da Escola X.

Mais uma iniciativa de professores sérios foi frustrada. Mas não se pense que os pais e professores desistiram – foram recomeçar em outro lugar.

A situação descrita não é inédita; é bem comum, aliás. E permite-nos perceber uma das razões pelas quais o Brasil continua imerso numa profunda crise moral.

Verdade

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

A verdade padece, mas não perece.

(Santa Teresa d’Ávila)

 Conta-se que um filósofo conversava com o diabo, quando passou um sábio com um saco cheio de verdades, do qual uma caiu. Alguém a apanhou e saiu correndo, gritando: Encontrei a verdade! Perante esse quadro, o filósofo disse para o diabo: Aquele homem encontrou a verdade e, agora, todos vão saber que você é uma ilusão da mente. Mas o diabo respondeu: Está enganado. Ele encontrou um pedaço da verdade. Com ela, vai fundar mais uma religião. E eu vou ficar mais forte!

Quem sofrer de alguma forma de angústia existencial encontrará respostas em Kalil Gibran, ou em Antoine Saint Exupéry. Aqueles que estiverem em situação de dúvida religiosa poderão recorrer à Bíblia, ao Corão, ou a outro qualquer livro sagrado. Essa experiência pode constituir-se numa bela harmonia. Certamente, haverá muitas verdades para a verdade em que acreditamos. Se eu vejo de um modo e o outro vê de outro modo, que se tente ver os dois modos, ver juntos, como Mahatma Gandhi fazia: “A minha preocupação não está em ser coerente com as minhas afirmações anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a verdade.” Não esqueçamo-nos que foi a imposição de uma “verdade” única que levou Espinosa ao exílio e Galileu à retratação.

O José Prat ironiza: “Sempre que alguém afirma que dois e dois são quatro, e um ignorante lhe responde que dois e dois são seis, surge um terceiro que, em prol da moderação e do diálogo, acaba por concluir que dois e dois são cinco”…
Apesar das distorções da informação cometidas pela mídia, a verdade continua sendo verdade. Quando a mentira, tal como a Medusa, contempla o escudo de Teseu e soçobra, é porque reconhece a sua verdadeira face.

Um e-mail recebido de uma professora está escrito:

– Eu estava numa palestra sua e lhe fiz uma pergunta. Me apresentei como pedagoga e disse que tinha duas dúvidas. O senhor me respondeu algo assim: Como pode ser pedagoga e ter apenas duas dúvidas?

Acredito que todo o ser humano é uma dúvida, uma “metamorfose ambulante”. A dúvida e a humildade são companheiras diletas da verdade, uma mistura sublime. Aceitemos, serenamente, os mistérios por desvendar, sem necessidade de explicações para o inexplicável.

Venho repetindo que o princípio da veracidade deverá nortear todos os projetos educativos. Mas, na boca das crianças, a verdade chega a ser crueldade…

– Ah tia, desculpe! – disse a aluna.

– Por que, minha filha? – quis saber a professora.

– É que chamei a senhora de idiota – esclareceu a criança.

– Eu não escutei nada – disse a professora, sorrindo.

– Foi só em pensamento… – esclareceu a criança.

Ainda que disso não tome consciência, a criança age filosoficamente, buscando verdades. Verdades como a que reconstitui a história da filosofia dos adultos: Thales afirmava ser a água o elemento fundamental da matéria. Anaxímenes acreditou que fosse o ar. Para Xenófanes, o elemento fundamental era a terra. Heráclito afirmou que era o fogo. E chegou Empédocles, para explicar que o mundo é combinação da água, ar, terra e fogo. As crianças e os loucos falam verdades que a sua época permite vislumbrar. Talvez por isso, os loucos sejam internados em hospícios e as crianças em escolas. Permite, pois, que vos narre mais um episódio, confirmação da infantil prática da verdade.

Uma professora tentava convencer os alunos a comprar uma  cópia da foto do grupo:

– Imaginai que bonito será, quando vocês forem  grandes e todos digam “ali está a Catarina, é advogada, este é  o Miguel e, agora, é médico”.

Uma vozinha, vinda do fundo da  sala, fez-se ouvir:

E ali está a professora… Que já morreu.

Uma atitude é uma atitude…

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

      O correr da vida embrulha tudo. Vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí
afrouxa, Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

(Guimarães Rosa)

São os valores que definem o rumo de um projeto pedagógico e traduzem-se em atitudes. Se tal não suceder, um projeto não ultrapassará o nível das intenções.

O André estava prestes a reprovar, porque já quase havia ultrapassado o limite permitido de “faltas disciplinares”. O pai do André foi saber o que se passava. Foi-lhe explicado que o filho saía da sala de aula sem autorização da professora. Chegado a casa, o pai do André perguntou-lhe se tinha consciência do risco que estava a correr. O jovem respondeu afirmativamente. Ainda mais preocupado, o pai voltou à escola, tentando entender a obstinação do filho. Um professor amigo acolheu-o e explicou o que vinha acontecendo, desde que uma professora nova tomara a responsabilidade de dar aulas à turma do André. A professora era uma senhora insegura. No início da aula, gritava, ameaçava de mandar sair da sala, com falta disciplinar, todo o aluno que perturbasse a aula. Havia na turma um aluno, que parecia estar sempre de bem com a vida, dado que um sorriso permanentemente lhe enfeitava o rosto. A professora, supondo que o sorriso correspondia a desafio, pusera esse aluno fora da sala várias vezes. Tantas vezes quantas o André havia saído e, consequentemente, sido punido com “falta disciplinar”.

Na primeira vez, o André tentara explicar que o sorriso do colega era natural, uma característica. Não conseguira fazê-lo. A professora o mandou calar. O André saiu tantas vezes quantas o colega havia sido expulso, porque não concordava com a atitude injusta da professora e manifestava-se desse modo: num protesto mudo. Porque a solidariedade era um dos valores do quadro axiológico do projeto da escola que o André frequentara, antes de ingressar naquela, em que… quase reprovara por excesso de “faltas disciplinares”.

Uma atitude é uma atitude. E uma vida feita da constante demissão de atitudes é uma vida… sem atitude. Para salvar a pele, se perde o sentido da vida; para poupar incômodos, perdemo-nos a nós mesmos.

Em 1934, a primeira Constituição, que atribuiu ao Estado a responsabilidade pela educação do povo, inspirava-se em valores e princípios na época prevalecentes. Decorrente de tais valores e princípios, o Brasil da educação formal cuidou de formar elites e descuidou da educação do povo. Hoje, desdenha-se a ética (muitos membros da elite cometem crimes de colarinho branco…), num jogo de salve-se quem puder, porque a educação escolar fragilizou a responsabilidade social.

Poderá haver educação em práticas sociais que impedem a assunção de uma vida plena, quando não fazemos aquilo que se pode e se sonha poder fazer? Num tempo em que a Escola da Ponte começava a deixar de ser uma “escola dos pobres e deficientes”, passando a ser uma escola de todos, um pai, juiz de profissão, confidenciou-me: A minha filha aprenderá nesta escola aquilo que outras escolas lhe poderiam ensinar. Mas pode aprender aqui coisas que outras escolas não lhe ensinariam

Na sua primeira visita à Escola da Ponte, Rubem Alves deteve-se a observar uma menina, que consultava um dicionário. Perguntou por que o fazia. A menina respondeu: Estou fazendo uma lista de palavras “difíceis” deste texto e escrevendo-as de uma maneira mais simples.

O Rubem insistiu:

– Foi um professor que te mandou fazer essa tarefa?

– Não! – disse a menina – Eu sei o sentido destas palavras. Mas os meus colegas menores ainda não sabem consultar o dicionário e eu decidi ajudá-los, para que eles compreendam o texto, que é bem bonito.

Tolerância

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

Tolerância não significa aceitar o que se tolera

(Mahatma Gandhi)

O termo tem origem na palavra tolerare, que significa suportar pacientemente. Mas será possível aceitar que a paciência suporte a indiferença? Poder-se-á tolerar que todas as atitudes sejam consideradas legítimas? Poderemos incorrer num relativismo “tolerante”, onde a verdade e a mentira se equivalem? Talvez se deva considerar uma tolerância mais próxima de algo que dá pelo nome de… aceitação. Vejamos.

Até onde devemos aceitar a diferença? Poderá uma cultura sobreviver se tolerar subculturas que defendam uma cultura de oposição? Que diferença haverá, por exemplo, entre tolerar e aceitar que alguém seja homossexual, ateu, ou adepto de um time, que compete com o nosso time…? Que diferença haverá entre tolerar a passividade de um educador perante atos inaceitáveis e aceitar que se deva colocar limites a uma “ditadura da infância”, ao colapso ético face às exigências e reivindicações dos infantes? A tolerância confundida com a permissividade não permitirá que os tolerados imponham as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre direitos e deveres?

Será oportuno saber como alguns autores se posicionam perante essa tensão entre tolerar e aceitar. Edmund Burke avisa-nos de que existe um limite em que a tolerância deixa de ser virtude. Jaime Luciano Balmes diz-nos que não é tolerante quem tolera a intolerância. Karl Popper sintetiza a tensão numa frase: “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância”. E dois dos maiores mestres portugueses do século XX, assim se pronunciam: “Por que tolerar? Parece-me ainda pior do que perseguir. No perseguir há um reconhecimento do valor” (Agostinho da Silva); e “Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro” (José Saramago). Que me seja perdoada a presunção, mas me atreverei a fazer eco das palavras do saudoso escritor, para contextualizar a tensão entre tolerância e aceitação no contexto escolar.

É comum escutar a expressão educação democrática. Correndo risco de suscitar alguma polêmica, arrisco perguntar: As decisões tomadas pelo corpo de educadores de uma escola deverão ser tomadas por maioria (democrática), ou por consenso? A minoria a quem foi Imposta uma decisão democrática respeitará (aceitará) tal decisão, cumprirá aquilo que foi decidido? Dito de outro modo: as decisões deverão ser pautadas na tolerância, ou na aceitação?

Os brasileiros parecem tender à tolerância. Talvez por ser mais cômodo ir ao aeroporto, xingar o time que perdeu uma partida de futebol, do que manifestar na rua, na praça, em todo o lugar, a não aceitação do enriquecimento ilícito, da corrupção, de crimes contra o erário público. É mais fácil do que intervir quando um energúmeno joga uma lata vazia pela janela do carro, ou quando uma justiça obtusa permite que o político corrupto beneficie de impunidade. O péssimo exemplo de significativa parte da classe política influencia o caráter do povo, polui as mentes com valores egoístas. O povo brasileiro sofre de uma bovina tolerância face aos atos imorais dos indigentes morais, que conspurcam a nobre arte de fazer política.

Li (já não sei onde) que a ética assemelha-se a uma reta: a menor distância entre os pontos A e B, onde A é o Ideal e B, a Ação. Deveremos tolerar a incoerência entre o pensar e o fazer, ou aceitar a necessidade de fincar barreiras perante procedimentos moralmente contraditórios?

Solidariedade

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

Sejamos irmãos porque estamos perdidos num pequeno planeta dos arredores de um sol suburbano de uma galáxia periférica de um mundo privado de centro.

(Edgar Morin)

 

Reflitamos sobre uma dura realidade: a quantidade de suicídios verificados neste nosso conturbado mundo equivale ao dobro do conjunto de mortos por guerra e fome. Quem se interroga sobre as causas de ambas as tragédias? Quem reflete sobre a ausência de uma ética apoiada na bondade e no apoio mútuo?

Naquela idade em que começamos a sentir a necessidade de dar sentido à vida (ou de sair dela…), é preciso que aconteça um feliz encontro com seres que ensinam que a verdadeira vida é um fraterno encontro. E há tantos desencontros nesta vida… Ao vivo, a televisão transmitia um atropelamento, numa rua de São Paulo: um corpo no meio da rua e condutores desviando as seus automóveis daquele obstáculo, alguns quase esmagando a inerte vítima do acidente. Na calçada, transeuntes alheios ao drama. Até o momento em que um deles faz sinal aos carros para que parem, vai até junto do corpo e pede para chamar uma ambulância. Interrogo-me: Este software humano será o único, ou poderemos aspirar a algo diferente? Quero crer na possibilidade de uma sociedade mais fraterna. E escuto o mestre Morin, que nos fala da necessidade de uma metamorfose, de uma reforma moral, lograda através de profundas mudanças no modo de educar e numa economia ecológica e solidária. Ele diz-nos que solidariedade é a palavra que pode modificar positivamente o futuro da humanidade. Curiosamente, Morin considera que o país com maiores possibilidades de liderar essa metamorfose solidária é o… Brasil.

Quando se substituirá um “ou” solitário pela coordenação do “e”, para que não haja moradores dos jardins versus zona leste, mas apenas brasileiros unidos numa tarefa comum? Por que não imitamos os japoneses, vítimas de um terrível tsunami? Ninguém furou fila para assistência médica. Compartilhou-se a falta de água, a fome, a tristeza, a morte. Não houve saques, mas solidariedade.

O presidente da assembleia da escola era um mocinho muito autocentrado. Nas reuniões, ele somente dava a palavra aos amigos e não assumia responsabilidade coletiva, em situações que justificavam essa atitude. Foi criticado por muitos dos alunos que o elegeram. Reagiu, dizendo que se demitiria. Então, as crianças tomaram uma decisão surpreendente: decidiram que o presidente deveria continuar no cargo. Mas que a condução das reuniões deveria ser participada pelos restantes membros da mesa da assembleia, de modo a ajudar o presidente a aprender a respeitar os outros e a respeitar-se.

Ao longo daquele ano letivo, o presidente, que não foi demitido, viveu múltiplas situações de ajuda mútua. No final da última assembleia daquele ano, deitou discurso, agradecendo aos colegas a oportunidade de ter aprendido a ser solidário. Em linguagem de gente jovem, disse, mais ou menos, isto: Que não se importava de não ser o primeiro, para que todos fossem os primeiros. Diz-nos o mestre Johann Heinrich Pestalozzi que a educação moral não deve ser trazida de fora para dentro da criança, mas deve ser uma consequência natural de uma vivência moral. A compreensão e a aceitação do outro resulta de uma aprendizagem da verdade, na arte de conviver. Desde tenra idade, a solidariedade na solidariedade se aprende.

Um menino sentou-se no colo de um idoso, que chorava a morte da sua esposa. O idoso susteve o choro e sorriu. Quando a mãe da criança lhe perguntou o que tinha dito ao velhinho, a criança respondeu: Nada. Só o ajudei a chorar.

O ensino domiciliar e a suposta educação moral

Silvia M. Gasparian Colello

Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

 

Como uma corrente em ascensão mundial, a opção de pais pela educação dos filhos em casa (homeschooling) vem ganhando adeptos no Brasil, passando de 250 para 1.000 casos de adesão familiar desde 2009[i]. Nos Estados Unidos, mais de 2 milhões de crianças e jovens foram deliberadamente retirados das escolas para serem educadas em casa. Ancorados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que defende o direito dos pais na escolha do gênero de instrução destinada a seus filhos, o ensino domiciliar contraria a legislação brasileira que, tanto na Lei de Diretrizes e Bases como no Estatuto da Criança e do Adolescente, impõe como dever dos pais a matrícula de crianças e jovens em instituições de ensino. No Código Penal considera-se que deixar de prover instrução é crime de abandono intelectual, razão que justifica processos movidos pela justiça brasileira contra nove famílias. Como reação ao conflito, algumas já planejam uma ação conjunta requerendo o direito de educar seus filhos e, assim, sair da situação de clandestinidade. Na mesma linha de reivindicação, corre na Câmara dos Deputados um projeto de lei para regulamentar a Educação Básica domiciliar.

No movimento do homeschooling as justificativas fundamentam-se em três argumentos: a ineficiência do ensino, a violência na vida escolar e o descaso em relação à Educação moral. O acordo com as críticas formuladas fortalece a nossa convicção sobre a necessidade de se valorizar a Educação, a profissão docente e os mecanismos de promoção da qualidade de ensino. Trata-se de uma luta pedagógica e política indispensável para a conquista de uma sociedade efetivamente democrática. Uma luta que, no entanto, só pode ser travada no contexto da participação social e não por alternativas individualistas, por vezes elitizadas, que ignoram a Educação como um direito coletivo. Por essa lógica, defender uma alternativa de Educação para o “meu filho” significa descomprometer-se com o futuro das próximas gerações.

Ao considerar internamente a proposta de ensino domiciliar, condenamos com veemência o pressuposto de que o projeto educativo de formação humana possa ser levado a cabo pela mera coleção de saberes adquiridos no contexto do isolamento e da superproteção familiar. A aprendizagem significativa não se faz pela assimilação de conteúdos dispostas nas redes de informação, mas antes pela capacidade de relacionar ideias, articular conhecimentos, sentimentos e posturas na constituição de si e de modos de ser em face da vida. Para tanto, importa que o indivíduo aprenda a interagir, argumentar e lidar com situações de conflito, assumindo a responsabilidade por suas decisões. Por isso, não há conhecimento independente de posturas, compromissos, desejos, valores e disponibilidades para a ação. Além disso, a resolução de problemas que se colocam nas inúmeras relações com os outros e com os objetos de conhecimento funcionam como um verdadeiro mote para o despertar de interesses, a ampliação de horizontes e a promoção do “aprender a aprender”.

Do ponto de vista da aprendizagem, é pouco provável que o contato com os pais-professores, por mais eruditos que sejam, possa superar as situações promovidas em classe por aproximadamente 85 professores especialistas que integram a trajetória da Educação Básica. É pouco provável também que, nos limites da própria casa, os jovens tenham a oportunidade de desenvolver competências e de colocar seus saberes a serviço da inserção social. Do ponto de vista socioafetivo, há que se condenar o reducionismo das relações e a sobreposição dos papeis de pais e professores. Tais condições tendem a limitar (sem os benefícios dos eventuais contrapontos) os parâmetros de referência e de experiência emocional justamente porque situam em apenas duas pessoas as relações de autoridade, hierarquia, afeto, admiração, submissão, respeito e obediência. Finalmente, do ponto de vista da formação humana, é impossível garantir na situação doméstica a pluralidade de experiências vividas na relação com os colegas: oportunidades de fazer e perder amigos, lidar com diferenças e tensões interpessoais, ganhar e perder, medir forças e contar com a cooperação do outro, brigar e se defender, desenvolver sentimentos de solidariedade, tolerância, empatia, cumplicidade…

A contradição explícita nesses argumentos torna-se mais insustentável em face dos dois princípios da Educação moral assumidos pelos adeptos do homeschooling: garantir aos filhos os valores pessoais e protegê-los dos maus exemplos da sociedade, tais como a sexualidade pré ou extra conjugal, a homossexualidade, a gravidez precoce e a violência. No que diz respeito ao primeiro, entendemos que a intenção deliberada de “reproduzir o eu no outro” configura a Educação como um processo de manipulação contrário ao desejável livre-arbítrio. Por sua vez, o princípio de proteção, balizado pelo falso pressuposto de que “esconder é evitar o perigo”, parece ir na contramão da formação ética e moral para a cidadania. Afinal, como preparar alguém para a vida e para o mundo com base em práticas apartadas da vida do mundo?

 

 

%d blogueiros gostam disto: