Uma atitude é uma atitude…

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

      O correr da vida embrulha tudo. Vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí
afrouxa, Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

(Guimarães Rosa)

São os valores que definem o rumo de um projeto pedagógico e traduzem-se em atitudes. Se tal não suceder, um projeto não ultrapassará o nível das intenções.

O André estava prestes a reprovar, porque já quase havia ultrapassado o limite permitido de “faltas disciplinares”. O pai do André foi saber o que se passava. Foi-lhe explicado que o filho saía da sala de aula sem autorização da professora. Chegado a casa, o pai do André perguntou-lhe se tinha consciência do risco que estava a correr. O jovem respondeu afirmativamente. Ainda mais preocupado, o pai voltou à escola, tentando entender a obstinação do filho. Um professor amigo acolheu-o e explicou o que vinha acontecendo, desde que uma professora nova tomara a responsabilidade de dar aulas à turma do André. A professora era uma senhora insegura. No início da aula, gritava, ameaçava de mandar sair da sala, com falta disciplinar, todo o aluno que perturbasse a aula. Havia na turma um aluno, que parecia estar sempre de bem com a vida, dado que um sorriso permanentemente lhe enfeitava o rosto. A professora, supondo que o sorriso correspondia a desafio, pusera esse aluno fora da sala várias vezes. Tantas vezes quantas o André havia saído e, consequentemente, sido punido com “falta disciplinar”.

Na primeira vez, o André tentara explicar que o sorriso do colega era natural, uma característica. Não conseguira fazê-lo. A professora o mandou calar. O André saiu tantas vezes quantas o colega havia sido expulso, porque não concordava com a atitude injusta da professora e manifestava-se desse modo: num protesto mudo. Porque a solidariedade era um dos valores do quadro axiológico do projeto da escola que o André frequentara, antes de ingressar naquela, em que… quase reprovara por excesso de “faltas disciplinares”.

Uma atitude é uma atitude. E uma vida feita da constante demissão de atitudes é uma vida… sem atitude. Para salvar a pele, se perde o sentido da vida; para poupar incômodos, perdemo-nos a nós mesmos.

Em 1934, a primeira Constituição, que atribuiu ao Estado a responsabilidade pela educação do povo, inspirava-se em valores e princípios na época prevalecentes. Decorrente de tais valores e princípios, o Brasil da educação formal cuidou de formar elites e descuidou da educação do povo. Hoje, desdenha-se a ética (muitos membros da elite cometem crimes de colarinho branco…), num jogo de salve-se quem puder, porque a educação escolar fragilizou a responsabilidade social.

Poderá haver educação em práticas sociais que impedem a assunção de uma vida plena, quando não fazemos aquilo que se pode e se sonha poder fazer? Num tempo em que a Escola da Ponte começava a deixar de ser uma “escola dos pobres e deficientes”, passando a ser uma escola de todos, um pai, juiz de profissão, confidenciou-me: A minha filha aprenderá nesta escola aquilo que outras escolas lhe poderiam ensinar. Mas pode aprender aqui coisas que outras escolas não lhe ensinariam

Na sua primeira visita à Escola da Ponte, Rubem Alves deteve-se a observar uma menina, que consultava um dicionário. Perguntou por que o fazia. A menina respondeu: Estou fazendo uma lista de palavras “difíceis” deste texto e escrevendo-as de uma maneira mais simples.

O Rubem insistiu:

– Foi um professor que te mandou fazer essa tarefa?

– Não! – disse a menina – Eu sei o sentido destas palavras. Mas os meus colegas menores ainda não sabem consultar o dicionário e eu decidi ajudá-los, para que eles compreendam o texto, que é bem bonito.

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9 pensamentos sobre “Uma atitude é uma atitude…

  1. ROSANGELA AP.DA SILVA 13 de março de 2013 às 17:58 Reply

    Atitude é o que conta…Quando se quer, tudo é possível, uma atitude por mais simples que seja pode mudar muitas histórias!!!
    Gostei muito desse artigo, obrigada! Para mim foi um presente!

  2. Marinete Alessandra da Silva Pinto 13 de março de 2013 às 23:59 Reply

    A escola deixou de ser para poucos, hoje ela é voltada para todos, e esse todos é que nos incomoda como educadores, pois queremos alunos perfeitos e aptos a aprender aquilo que eles não compreende e não tem valor no seu cotidiano. Quando eu li o texto “uma atitude é uma atitude”, percebi que meus sonhos são realidades vivenciadas por especialistas renomados, parabéns pelo texto.

  3. ELAINNE 14 de março de 2013 às 15:35 Reply

    Legal , mais um texto reflexivo onde a culpa é do professor… patético!

  4. silviamaratrevelin 14 de março de 2013 às 17:59 Reply

    As coisas mais SIMPLES da vida são as mais ELABORADAS:

  5. Marcia teresinha michelin milhossi 15 de março de 2013 às 12:48 Reply

    Otimo texto para repensar o papel da escola.

  6. Lindalva do Carmo Ferreira 15 de março de 2013 às 18:36 Reply

    Realmente, trabalhar atitudes de vivencia coletiva e individual é fundamental no espaço da sala de aula. Não importa se estamos apenas colocando pequenas gotas.
    Prof.Lindalva Ferreira
    Colégio Estadual Central do BrasiRio de janeiro-RJ

  7. Moises Silva 16 de março de 2013 às 10:37 Reply

    Muito bom o texto. Muitas vezes a construção de um PPP resulta em um documento brilhante, mas não passa disso, uma folha morta. Professores, pedagogos e diretores não se apropriam dele, e continuam fazendo as mesmas coisas de outrora. Mas a escola tem um PPP!

  8. Suely Ribeiro Alves de Aguiar 17 de março de 2013 às 17:55 Reply

    Muito interessante, o que nos falta é tempo… tempo, este ítem precioso para analisar, pesquisar, porque hoje os professores estão tão cheios de atribuições burocráticas que lhes sobram tempo até para respirar e observar tais alunos, se estão sendo sarcásticos ou até mesmo vítimas de uma educação retrógrada, ultrapassada e sem qualidade. Acredito que profissionais bons e comprometidos não são valorizados como deveriam, a política social é fraca com relação a educação. O bom professor deveria ser mais respeitado na sociedade, a sua remuneração deve ser suficiente para trabalhar apenas um horário para no outro dedicar-se a pesquisa, leituras diversas, troca de ideias com colegas, planejamentos mais elaborados e ricos em sugestões, a fim de evitar uma sobrecarga física e emocional.

    O professor é referência, e seu papel é o de contagiar o aluno a ir em busca de conhecimentos, seguir o caminho com ajuda e orientação, por isso acredito que o currículo dos cursos de pedagogia deveria ser mais voltado a realidade e a prática de tais profissionais e esses não deveriam nunca deixar de estudar e serem avaliados pelo MEC, porque só contagia realmente aquele profissional que sabe e domina o que está ensinando e isso é uma deficiência em grande parte dos educadores.

  9. Adriana Lucio 11 de abril de 2013 às 14:37 Reply

    O PPP da minha escola atualmente é básico e tentamos torna-lo o mais real possível. As decisões são tomadas com base nas necessidades de nossos alunos. No entanto, não conseguimos concluir todas as nossas metas, devido a ações externas que vão além da nossa responsabilidade. Como a questão da segurança pública ,que quebra toda a nossa organização pedagógica e o nosso emocional. Com isso, o olhar atento e afetivo do professor está cada vez mais indisponível em sala de aula. As atitudes são mais mecânicas. Valores foram alterados . Enfim, a Educação hoje é para quem resiste a tudo.

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