Arquivo mensal: setembro 2012

Lealdade

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

Olhe em cada caminho com cuidado e atenção. Então, faça a si mesmo uma pergunta: possui este caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom… caso contrário, esse caminho não possui nenhum significado.

(Carlos Castañeda)

Quando criança, eu inquiria o porquê das coisas e escutava a inevitável resposta: “Um dia, hás de perceber por que razão aprendes estas coisas”.

Já sexagenário, continuo sem saber quando chegará esse dia. Continuo sem perceber o porquê de muitas coisas com as quais “me prepararam para a vida”. Contudo, sei que o essencial é aprendido com aqueles que partilham o nosso viver. Somos aquilo que somos mais o contágio daquilo que os outros são. Colhi de maravilhosas criaturas extraordinários ensinamentos. Com eles me identifiquei e, antropofagicamente, deles absorvi valores. E se a lealdade, como qualquer outro valor, com gente leal e no exercício da lealdade se aprende, no cotidiano das escolas a cultivei.

Diz-nos o dicionário que lealdade é qualidade, ação ou procedimento de quem é leal, honesto, fiel a compromissos. Se os jovens estão sempre atentos ao exemplo de vida dos adultos e aos valores que eles traduzem, se através do exemplo não formos leais, abriremos espaço para desenvolver contravalores. Em que vida estamos educando os nossos jovens? Em  uma vida feita de lealdade a princípios e a gentes? Que virtudes são ensinadas aos nossos jovens, aprendidas pelos nossos jovens?

Não nascemos reflexivos; aprendemos a refletir. Não nascemos com virtudes; aprendemos as virtudes. Em secretas, mas extraordinárias escolas, venho aprendendo a lealdade a ideários. Com outros educadores, busco assumir o princípio básico de Santo Agostinho: quando não se pode fazer tudo o que se deve, deve-se fazer tudo o que se pode, sendo leal a si mesmo. No Brasil, reaprendi a lealdade com novos companheiros de projeto. Na história recente deste país, creio que Nise da Silveira terá sido um dos símbolos maiores da lealdade, de uma lealdade entendida como fidelidade a princípios. Nela reconheço o seu exemplo e inspiração. A sua figura emerge de um tempo conturbado e no contexto de uma sociedade alienada e alienante, uma civilização desviada para um abismo de si mesma. Nise sofreu a repressão, a discriminação, mas manteve-se leal a si mesma e àqueles que, nos asilos de então, recebiam o seu eletro-choque diário.

Quando o médico-chefe lhe ordenou que executasse a eletroconvulsoterapia, Nise recusou apertar o botão do eletrochoque. Com esse ousado gesto, mudou de forma definitiva o tratamento psiquiátrico que se fazia no Brasil, influenciou, em definitivo, a psiquiatria do país. E precipitou a sua prisão (ainda que, como bem disse Clarice Lispector, prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio). Assim foi que outro escritor, Graciliano Ramos, companheiro de cárcere de Nise, a ela se referiu: a sua presença benfazeja afugentava lembranças ruins, “a pobre moça esquecia os próprios males e ocupava-se dos meus”. Lealdade! Lealdade a princípios, lealdade aos seus “loucos”, enfrentando a loucura de fora de asilo. Salomão avisou-nos: “o homem instruído que se separa das virtudes é como joia preciosa em focinho de porco”. E Sêneca disse-nos que “não se deve ensinar para a escola mas para a vida” (non scholae, sed vitae est docendum). Com toda a ousadia que o meu gesto pressupõe, acrescentaria ao preceito desse contemporâneo de Jesus, o exemplo cristão de não ensinar “para”, mas ensinar “com” – é “na vida” e não “para a vida”. É com os outros (discípulos, adeptos, companheiros…), no hic et nunc da humana existência, que a Educação acontece.

 

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