Arquivo mensal: agosto 2012

Justiça

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

Quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, qual será a causa desta corrupção? Ou é porque os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.

(Padre Antônio Vieira)

 

Continuemos ao estilo do Padre Antônio Vieira. Desistindo de convencer os homens, Vieira dirigiu os seus sermões para seres mais sensíveis: os peixes, alheios às renúncias dos homens. Aos peixes, discretas testemunhas da corrupção de costumes praticada por aqueles que pela terra vão cumprindo os seus dias e que das injustiças não traduzem consciência.

Escutemos Vieira: Ou é porque os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou – poderia acrescentar – porque andam tão distraídos nas suas lides de ganhar a vida, que a perdem. Ou por pressentirem que da corajosa denúncia da corrupção poderá advir nefasta consequência para si e para os seus.

Assistimos ao uso e abuso do poder. O patrimônio comum é usado em favor de uns poucos, em atos que quedam impunes, não sendo raro que os seus suspeitos autores sejam considerados pessoas de bem, a quem são atribuídas honrarias. Convivemos com um descarado tráfico de influências, vemos o erário público ser defenestrado, efetuadas transações de bens à margem dos procedimentos legais. Os conceitos de respeito pela pessoa humana e de justiça banalizaram-se.

Bento XVI diz que os cristãos não deverão respeitar leis injustas. Mas, num país que conta mais de um milhão de leis, a única lei que se cumpre sem exceção parece ser a da gravidade… Pois que se aja e se assuma resiliência, porque ainda há gente que se importa. Numa época de injustiças como a nossa, façamos a nossa parte, façamos luz sobre os males de que o mundo padece, para que sejam abertos rasgões de luz na cortina de escuridão que sobre ele caiu, e sob a qual prosperam ladrões e tiranos. Urge debelar o medo, esse disfarce usado quando se faz o que sempre se fez, como se nada de indigno tivesse acontecido.

Diz-nos o dicionário que valor (do latim valore) é qualidade de quem pratica atos extraordinários e, eticamente, um princípio passível de orientar a ação humana. Se assim for, convirá seguir o preceito do Dalai Lama: Precisamos ensinar, do jardim de infância até a faculdade, que a moralidade é o caminho da felicidade. O sistema educacional moderno presta somente atenção no desenvolvimento do cérebro e não no desenvolvimento moral. Porque, se a escola não é o primeiro lugar para se educar o indivíduo, também não deverá ser o primeiro lugar de o deseducar, mas um lugar e tempo de aprendizagem de valores. Quando, no quadro de uma reorganização curricular, se instituiu “uma hora semanal de educação para a cidadania”, eu questionei os autores da proposta: por que razão não deveriam ser as restantes horas de “educação na cidadania”? Quem nunca viu uma criança a furar a fila da merenda? Quem nunca viu a família dessa criança a jogar lixo na rua e a entupir os bueiros?… Até que ponto a escola pode apenas promover uma inútil acumulação cognitiva e se demitir da função de educar?

Clamemos por justiça, onde quer que os nossos atos possam promovê-la, atenuando a crise da sua ausência. Leonardo Boff diz-nos que a crise que nos afeta não é uma crise cíclica e que uma nova ordem mundial é necessária, um novo modo de habitar a Terra. E Alain Tourraine lança um alerta: ou a crise acelera a formação de uma nova sociedade, ou virá um tsunami que poderá arrasar tudo pela frente, pondo em perigo a nossa própria existência no planeta.

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