Arquivo mensal: junho 2012

Os sons e a ginga afro-brasileira

1. Comentário sobre o livro ABC Afro-brasileiro

Atitudes veladas ou preconceitos raciais declarados ainda estão presentes no nosso dia a dia. No entanto, somos um povo em cuja alma a África se manifesta cotidianamente no jeito alegre, acolhedor, festivo, guerreiro, colorido e apimentado. Negros vindos de diversas nações africanas trouxeram sua cultura e redesenharam nossa identidade. São sabores, aromas, ritmos, palavras, danças, jogos, festas expressões artísticas e religiosas que constituem o jeito de ser afro-brasileiro. A leitura do livro oferece a oportunidade de incluir no currículo escolar as manifestações culturais de origem afrodescendente e suas influências na realidade brasileira, bem como refletir sobre a luta da população negra para garantir sua inclusão em todos os setores da sociedade, temáticas fundamentais na discussão sobre Ética e Cidadania com seus alunos.

 

2. Sugestão de atividade para sala de aula 

 Os sons e a ginga afro-brasileira:

Este é um convite para descobrir e valorizar as manifestações culturais afro-brasileiras, através de sons, ritmos e danças presentes na cultura popular.  

 

Primeiras ideias:

A herança cultural dos distintos grupos étnicos africanos que chegaram ao Brasil desde o século XVII, na época escravista, marcou permanentemente nossa identidade. A palavra identidade, segundo o Dicionário Didático de Edições SM, significa “o conjunto de características ou dados que permitem individualizar, identificar ou distinguir algo”. Pode-se afirmar que a nossa identidade pessoal está justamente em nossa singularidade, naquilo que nos torna diferente do outro. Como seus alunos compreendem a noção de identidade? Ampliando a discussão, questione seus alunos sobre quais as singularidades que nos constituem enquanto nação e quais as características do povo brasileiro. Insista para que eles ampliem as respostas para além dos clichês. A multiplicidade de etnias, crenças religiosas, lugares e histórias presentes na composição do povo brasileiro revelam nosso tempero multicultural. Anote as respostas na lousa para usá-las posteriormente.

Refletindo sobre valores:  

Muitas questões sobre cultura se relacionam com questões de identidade. Quando ignoramos a identidade do outro, nossa “miopia” nos impede de pensar em solidariedade, responsabilidade e união simplesmente porque nos isolamos culturalmente e não aceitamos a diversidade. O termo cultura pode ser utilizado também como mediação de significados e valores, quando produz o sentido de saber se reconhecer, incorporando a noção de pertencimento. Segundo Stuart Hall, no livro A identidade cultural na pós-modernidade,

as culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmo. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas. (HALL, 2005, p. 50)

As singularidades dos vários “Brasis” que nos compõem refletem a trama cultural das tradições dos povos africanos, europeus e indígenas. Nesse sentido, trabalhar na escola com atividades da cultura popular podem desenvolver a percepção de nossa pluralidade e valorizar as identidades individuais e coletivas.

Atividade coletiva:

Sons, ritmos e muita ginga fazem parte do nosso dia a dia… São muitas as expressões artísticas africanas presentes em nossa cultura popular: Tambor de Crioula, Bumba Meu Boi do Maranhão, Samba de Roda do Recôncavo Baiano, Samba do Rio de Janeiro, Jongo do Sudeste, Coco, Maracatu, Ciranda, Carnaval, Congada, Folia de Reis, entre outras… Manifestações culturais tão fascinantes que, certamente, devem ocupar também os espaços escolares porque podem inspirar ricos trabalhos cooperativos.

Professor(a), para conhecer mais sobre danças africanas, assista a alguns vídeos disponíveis na internet nos sites indicados, entre outros. Se possível, apresente para toda a turma. Junto aos alunos vamos introduzir o Jongo, dança que tem suas raízes nos saberes, ritos e crenças dos povos africanos, sobretudo os de língua bantu. Considerado patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, desde 2005, o Jongo influenciou a formação do samba. Cantado de formas diversas, possui percussão de tambores e dança coletiva dependendo da comunidade que o pratica. Por exemplo, no Jongo da Serrinha, RJ,

os dançarinos movem-se em círculo até que dois deles se dirigem ao centro da roda, espontaneamente, onde executam um solo coreográfico. Fazem-no até que outro integrante da roda substitua uma das pessoas do par solista, aproximando-se com movimentos graciosos. Assim sucedem-se os dançarinos, em entradas e saídas coordenadas por eles mesmos, com movimentos e expressões faciais e pela percepção coletiva da duração adequada de cada exibição.

Vamos praticar, no pátio ou outro espaço onde os alunos possam fazer uma grande roda. Destaque a importância da marcação com os pés e as mãos para perceber o ritmo. Use as palmas das mãos, na impossibilidade de usar tambores e outros instrumentos, apresente as duas composições abaixo e explore a expressão corporal e a repetição vocal com a turma.

 

SolistaNa minha fazenda

Tem um boi que sabe ler

Na minha fazenda

Tem um boi que sabe ler

CoroMas se você não acredita

‘Cê vai lá que você vê

 

Solista Tanta chuva que choveu

Na goteira não pingou

Tanta chuva que choveu

Coro Na goteira não pingou

Não pingou, não pingou,

Tanta chuva que choveu,

Na goteira não pingou

A roda pode se estender pelo tempo que quiserem, revezando os solistas. O grupo pode inventar passos e novas rimas para cantar. No retorno à sala de aula, solicite aos alunos comentários sobre as surpresas e descobertas sobre esse ritmo afro-brasileiro. Se houver interesse, convide-os para a pesquisarem sobre danças afro-brasileiras.  

Sistematizando:

Como sabemos, as danças são basicamente aprendidas em sociedade. Dançar, apreciar e contextualizar diferentes manifestações culturais possibilita a identificação da singularidade, a discussão sobre preconceitos e diversidade, refletindo sobre as relações étnicas com equidade e cooperação. Isabel Marques (20035, p. 56) afirma que

criar a partir de tradições dos povos possibilita um outro tipo de olhar, um olhar não complacente e ingênuo frente às contribuições das etnias e culturas que formam o povo brasileiro. Do mesmo modo, permitem-nos perceber, nos processos pessoais e coletivos de criação em dança, quais histórias carregamos, que povos representamos, que escolhas fazemos em relação a nossas vivências e atitudes em uma sociedade global.

Como são muitas e variadas as manifestações da cultura popular afro-brasileira, verifique a possibilidade de trazer representantes de alguma comunidade afrodescendente do bairro para conversar com seus alunos. Este pode ser o início de uma expedição cultural ampliada pela percepção de uma cultura nacional e cidadã.  

Para saber mais

 HALL,Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. DP&A, Rio de Janeiro, 2005

MARQUES, Isabel. Dançando na escola. Editora Cortez, São Paulo, 2005

Sites indicados

– Associação Cachuera! Para conhecer mais sobre a cultura popular, com ênfase nas manifestações das comunidades afrodescendentes do Sudeste brasileiro, particularmente de matriz bantu
http://www.cachuera.org.br/cachuerav02/index.php

– Maracatu de Baque Virado na internet,com acervo sonoro
http://maracatu.org.br/

– Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, que disponibiliza videos de canções e danças
http://www.cnfcp.gov.br/index.php

– Jongo da Serrinha
http://www.jongodaserrinha.org.br/v2/index.htm

– Coleção Percepções da Diferença, com dez volumes, produzidos pelo NEIB, Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro, da Universidade de São Paulo/USP
http://www.usp.br/neinb/?q=node/9

– Ensino Afro-Brasil: portal do Curso de Formação em História e Cultura Afro Brasileira e Africana
http://www.ensinoafrobrasil.org.br/portal/

– Fundação Pierre Verger – importante pesquisador de assuntos africanos, com acervo fotográfico
http://www.pierreverger.org
   
– A Cor da Cultura: projeto educativo de valorização da cultura afro-brasileira, fruto de uma parceria entre Canal Futura e outras instituições. Disponibiliza material para o professor
http://www.acordacultura.org.br/

Virtudes e Educação moral

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

De acordo com André Comte-Sponville, na sua obra Pequeno tratado das grandes virtudes, a virtude é uma força que age ou que pode agir, e nesse caso é independente do uso que dela se faz ou do fim a que visa ou serve: a virtude de uma faca é seu corte, e a boa faca é a que corta bem (essa virtude pode servir tanto para matar como para salvar alguém). Portanto, uma virtude não é necessariamente moral, mas na mão do ser humano dotado de razão ela deve sempre ser utilizada para o Bem.

A primeira virtude que queremos abordar é a honestidade, e a escolhemos porque consideramos que, como valor moral, ela está associada ao princípio moral de justiça. Ser honesto e não roubar algo das outras pessoas, por exemplo, envolve o respeito ao direito de propriedade dos outros e, nesse princípio, torna-se uma obrigação moral. Envolve também a legalidade, já que, ao menos em nossa cultura, podemos afirmar que o roubo é considerado uma ação ilegal, que fere os princípios de justiça elaborados em nossas legislações.

Temos, portanto, que a honestidade como virtude pode ser vinculada à justiça, reconhecendo que não são sinônimos, e também que ela não se limita conceitualmente ao exemplo que aqui estamos citando: não roubar. Mas nos interessa porque o preceito honesto de não roubar pertence a uma classe de deveres estabelecidos historicamente em quase todas as culturas, e que é essencial para a vida em sociedade. Ser honesto é uma virtude muito valorizada socialmente e pertence ao conjunto de preceitos morais considerados “clássicos”.

A segunda virtude que quero mencionar é a generosidade. Em primeiro lugar é necessário dissociá-la da solidariedade, virtude com a qual é comumente confundida. A solidariedade pressupõe uma interdependência entre as pessoas, um corporativismo, um ser solidário aos outros, e não necessariamente torna-se uma virtude moral. Por exemplo, posso ser solidário a alguém que cometeu uma falta moral, prejudicando outras pessoas, não o denunciando somente porque é meu amigo e gosto dele. A generosidade é diferente porque vai além da solidariedade e do interesse pessoal. Ela é o contrário do egoísmo e pressupõe dar algo de si sem esperar recompensas, dar algo de si pelo prazer de ajudar alguém, pela virtude de ser generoso. Segundo Comte-Sponville (1996, p. 104), “a generosidade aparece no cruzamento de duas virtudes gregas, que são a magnanimidade e a liberalidade. O magnânimo não é nem vaidoso nem baixo, o liberal não é nem avaro nem pródigo, por isso são sempre generosos, quando não se identificam”.

A generosidade não pode ser considerada pertencente a uma moral clássica. Ela se enquadra num valor mais subjetivo, reforçado culturalmente por alguns grupos, mas não está inscrita nas leis das sociedades como imperativos a serem cumpridos por todos os seus membros. Não existe a obrigação legal de que devemos ser generosos e ajudar os outros que necessitam de ajuda, embora exista uma cobrança subjetiva por parte de alguns grupos na sociedade para que isso aconteça. Todavia, para sermos generosos, e darmos algo para os outros sem obrigação, é essencial algum tipo de afetividade não subordinada à razão. Entendemos, pois, que a generosidade como virtude pode ser categorizada como uma moral não clássica, por não estar atrelada a um imperativo, à obrigação e ao dever legal.

Finalmente, a terceira virtude que merece destaque é a coragem, considerada por Comte-Sponville uma das quatro virtudes cardeais (junto com a justiça, a prudência e a temperança) e, universalmente, a mais admirada. Mas sua importância não é sinal de que seja somente moral, porque um ser humano tanto pode ter coragem para assassinar alguém quanto para lutar contra uma injustiça. No campo da virtude, a coragem está geralmente relacionada a formas desinteressadas de altruísmo ou de generosidade.

A coragem é sempre pessoal e seu valor moral não está na ausência do medo. Está, ao contrário, na capacidade de enfrentá-lo, de dominá-lo, de superá-lo. Como virtude e valor moral ela pode estar relacionada às outras, assim como em situações que envolvam correr riscos para ajudar outras pessoas, como pode estar relacionada ao próprio sujeito, com ações que envolvam sua autossatisfação ao vencer desafios pessoais. Neste último caso, ela se enquadra na categoria de moral Self-regarding, uma categoria moral difícil de ser compreendida. Estamos falando de uma moralidade intrapessoal, do sujeito consigo mesmo, com sua consciência autônoma. É a moralidade que pressupõe o compromisso do sujeito com sua autoestima, com as virtudes que objetivam o Bem. Trata-se da coragem como uma virtude moral em que o sujeito objetiva sua felicidade pessoal a partir de ações virtuosas que reforçam, por exemplo, sua autoestima e a imagem que se tem de si, e que não têm vínculos sociais ou com outras pessoas.

A intenção de apresentar essas três virtudes deve-se à significação que elas podem ter no campo da Educação moral, se trabalhadas cotidianamente e de forma intencional nas salas de aula e nos pátios escolares.

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