Arquivo mensal: maio 2012

Livro do Mês – Maio

Por que elegemos ABC Afro-brasileiro como livro do mês de maio?

 Atitudes veladas ou preconceitos raciais declarados ainda estão presentes no nosso dia a dia. No entanto, somos um povo em cuja alma a África se manifesta cotidianamente no jeito alegre, acolhedor, festivo, guerreiro, colorido e apimentado. Negros vindos de diversas nações africanas trouxeram sua cultura e redesenharam nossa identidade. São sabores, aromas, ritmos, palavras, danças, jogos, festas expressões artísticas e religiosas que constituem o jeito de ser “afro–brasileiro”. A leitura do livro oferece a oportunidade de incluir no currículo escolar as manifestações culturais de origem afro-descendente e suas influências na realidade brasileira, bem como refletir sobre a luta da população negra para garantir sua inclusão em todos os setores da sociedade, temáticas fundamentais na discussão sobre ética e cidadania com seus alunos.

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Guerra e Paz

1.Sugestão de atividade para sala de aula 

 

Guerra e Paz

Dois grandes murais do pintor brasileiro Candido Portinari, instalados desde 1957, na sede da ONU, Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, serão os disparadores das reflexões sobre a guerra e a paz na escola e para além dela.

 

Primeiras idéias:

Professor (a) investigue junto aos alunos os significados que atribuem à palavra guerra.  Anote na lousa as respostas para comentar depois. Será que conhecem alguém que viveu uma guerra? Qual é o imaginário dos alunos sobre situações de guerra? Há diferentes tipos de guerra? O que acontece à população antes, durante e após uma guerra? Continuando o diálogo, faça o mesmo com a palavra paz. Como a identificam? Há diferentes tipos de paz? Se a paz pode ser um ‘estado de espírito’, peça que descrevam situações onde se sintam em paz.

Em seguida, apresente as diferentes acepções para as palavras guerra e paz, encontradas no dicionário. Para o substantivo paz, por exemplo, encontramos: relação entre pessoas que não estão em conflito, acordo, concórdia; ausência de problemas, de violência; armistício, estado de espírito de uma pessoa que não é perturbada por conflitos ou inquietações; calma, quietude, tranqüilidade; lugar ou momento em que não há barulho e/ou agitação; calma, sossego.

 

Sobre a guerra encontramos muitos significados, entre eles: confusão, desinteligência, fúria e rebelião; luta armada entre nações, ou entre partidos de uma mesma nacionalidade ou de etnias diferentes, com o fim de impor supremacia ou salvaguardar interesses materiais ou ideológicos; qualquer combate com ou sem armas; peleja, conflito; disputa acirrada; hostilidade; desinteligência.

 

Refletindo sobre valores

Tanto a guerra como a paz revelam a síntese das preocupações e objetivos prioritários da atuação das Nações Unidas. Afinal, porque precisamos de uma organização internacional como a ONU? E quais as contribuições pessoais que podemos oferecer para realizar a paz na sala de aula, na escola, no bairro e na cidade? E em nossa família?  Como podemos ser agentes da paz? Professor(a) encaminhe as reflexões para a valorização da realização e manutenção das ações pacíficas na escola, bem como em todos os ambientes freqüentados pelos alunos. 

 

Atividade coletiva:

Na sala de informática, leve sua turma para navegar no site Guerra e Paz – Projeto Portinari. Incentive os alunos para a observação atenta e curiosa de todos os detalhes dos dois painéis, ‘contaminados’ com a delicada poesia, as cores e formas das pinturas do artista.  Na impossibilidade de acessar a internet com todos os alunos, leve para a sala de aula, uma apresentação em Power Point ou a reprodução em papel dessas imagens. Solicite que escolham uma cena no painel Guerra e outra no painel Paz. De volta à sala de aula, convide-os a comentar as obras e as cenas escolhidas. Quais as surpresas e estranhamentos? Como perceberam as diferentes definições sobre a Guerra e a Paz na obra do artista? Quais cenas dos painéis poderiam acontecer nos dias atuais?

 

Sistematizando

Comente com os alunos que os dois painéis, após a restauração, estão preparados para uma itinerância internacional planejada para levar Guerra e Paz entre outras cidades, à Hiroshima e à Oslo, por ocasião da entrega do Prêmio Nobel da Paz. Quais as hipóteses para esse percurso? Agora, nutridos pela poesia de Portinari e as reflexões sobre situações de concórdia/conflito, calma/desinteligência, tranquilidade/violência, proponha aos alunos que elaborem painéis sobre a Guerra e a Paz, considerando as situações cotidianas vividas por eles, no contexto da sala de aula, da escola, da comunidade. Separados em pequenos grupos, podem definir as cenas, realizar os esboços e as pinturas que serão expostas em painéis maiores, se possível, na entrada da  escola.

 

 

Quer saber mais? Guerra e Paz – Projeto Portinari, com informações sobre o artista, a obra e o caderno do professor. Visite o site http://www.guerraepaz.org.br/#/oProjeto/

 

Sites indicados:

Dicionário UOL: http://www.uol.com.br/
Nações Unidas no Brasil: http://www.onu.org.br/

Indignação

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.

(Darcy Ribeiro)

 

A Clarice dizia-nos que aquilo que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo. Talvez por isso, em plena ditadura, o mestre Agostinho recusou-se a assinar um documento que os esbirros da época exigiam de qualquer candidato ao exercício da profissão de professor. Esse e outros corajosos gestos valeram-lhe o exílio no Brasil (o que acabou sendo benéfico para o Brasil…).

Recentemente, um ativista indiano entrou em greve de fome e disse estar disposto a morrer pelo combate à corrupção. E, no Brasil, a OAB criou um site: “Observatório da corrupção”. Perante a ética deturpada e uma inversão de valores, como não há memória, esses sinais dizem-nos que nem tudo está perdido.

Mas, na contramão destes esperançosos gestos, o correspondente no Brasil do jornal El País escreveu: “Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?”. Quando o time perde, o brasileiro reclama, vai ao aeroporto de madrugada para xingar os atletas. Por que não exige a reforma política, o fim das aposentadorias milionárias, a prisão de políticos corruptos?

Vivemos em uma sociedade enferma de uma total inversão de valores. Pessoas justas são confundidas com as injustas, quase não faz sentido distinguir honestidade e desonestidade, vale tudo na senda do sucesso que tudo deturpa e corrompe. E o medo tudo faz esquecer, como se jamais algo hediondo tivesse acontecido.

A palavra ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa), e representa um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. Eticamente, como pode um povo suportar, por exemplo, que deputados, que não exercem o cargo para que foram eleitos, exerçam outros, acumulando a remuneração de um outro cargo com o de deputado?

Sempre que me perguntam qual foi o maior obstáculo à concretização do projeto da Escola da Ponte, eu respondo: o maior obstáculo fui eu. Fui eu, enquanto não me indignei, enquanto não agi, para assegurar o saber e a felicidade aos meus alunos. Só eu, num agir não solitário, poderei mudar algo. Ainda que alguém creia que o esforço de um só nada vale, é preciso agir. Mesmo que o medo nos assalte, é preciso reagir. Sem a coragem da indignação, a sabedoria é estéril. Como diria o Galeano: “O inimigo principal, qual é? A ditadura militar? A burguesia? O imperialismo? Não, companheiros. Nosso inimigo principal é o medo!”.

Tropa de elite 2 foi o meu filme do Natal de dois anos atrás. Nada melhor para escapar ao frenesi neurótico dos shoppings do que mergulhar num caos de violência e morte, assistir às tentativas vãs de um Capitão Nascimento idealista, que se apercebe de que a guerra que trava não é dos bons contra os maus, que o mundo não é preto no branco. O filme termina com a câmara de filmar sobrevoando Brasília. E o público irrompe numa entusiástica ovação. Depois, toda aquela gente, que aplaude um herói entregue às suas lutas contra policiais e políticos corruptos, volta para as suas casas, para a segurança de um emprego, para vidinhas feitas de novelas e big brother. Onde acaba a realidade? Onde começa a ficção?

Escutemos Drummond: “Provisoriamente não cantaremos o amor / Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. / Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços […] / existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro”. E não nos esqueçamos de que “Dignidade” era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena, e “Liberdade” era o nome da maior prisão da ditadura uruguaia.

Honestidade

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

Vós, diz Cristo, falando com os pregadores, sois o sal da terra.
E chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal.
O efeito do sal é impedir a corrupção.

(Padre António Vieira)

 

A imprensa fez eco de um “caso de cola” protagonizado por alunos do Centro de Estudos Judiciários. Cito o articulista: “Esses formandos foram reduzidos ao estatuto de alunos e os formadores elevados à categoria de catedráticos. E, assim, em vez de efetiva preparação profissional, o CEJ ministra um ensino essencialmente teorético, em que a cabeça dos formandos é atulhada com tecnicidade jurídica pelos seus oniscientes mestres. Não admira que, assim tratados, os chamados auditores de Justiça se comportem como alunos, para quem copiar nos exames sempre foi uma espécie de direito natural”.  

Diz a sabedoria popular que “cesteiro que faz um cesto faz um cento”. Quem pratica a fraude numa prova não a praticará no exercício das suas funções? Temos razões para preocupar-nos com a degenerescência da honestidade em pessoas encarregadas de fazer justiça, como em qualquer atividade humana. E, quando ela se manifesta na escola, talvez explique a degenerescência restante…

Um professor-vigia de uma prova nacional foi instruído pelo “manual do aplicador” a colocar os alunos a uma “distância prudente” uns dos outros. Inteligente, como qualquer professor, apercebeu-se de que, sem nada dizer, o não-verbal falava mais alto do que o verbal, e que ele agia como quem considerava estar na presença de seres potencialmente desonestos. Com tal procedimento, estaria praticando o chamado “currículo oculto”, transmitindo valores negativos aos alunos: mentira, deslealdade, falsidade, “espertismo”… E como esse professor, para além de inteligente, é sensível, sentiu-se um ser miserável.

Uma escola brasileira decidiu enviar os deveres de casa através da internet. Aqueles alunos que realizassem todas as tarefas seriam recompensados com um ponto extra na média do bimestre. A “inovação” foi um sucesso enquanto durou. Certo dia, um professor dessa escola descobriu que as respostas constavam de um site de relacionamento criado por uma aluna. A criativa aluna foi ameaçada e instada a retirar as respostas do mesmo. Acabou sendo suspensa, disciplinarmente mandada para casa.

Li num dístico, à entrada de um hotel: “Caro hóspede, devido à triste estatística de três ou quatro toalhas extraviadas por mês, estamos intensificando a revista após o fechamento da sua conta”. O absurdo virou instituição. Habituamo-nos a conviver com roubos e corrupções. O desrespeito pela pessoa humana se banalizou. O Brasil está imerso em uma profunda crise moral. Fingir que não se vê poderá ser considerado corrupção moral passiva.

O Gastão é professor e homem que se diz íntegro. Um amigo do Gastão ganhou a eleição para a prefeitura e convidou-o para ser o chefe da divisão de Educação, criada pelo novo prefeito. Porém seria necessário conferir seriedade à escolha. Foi aberto um concurso público, concurso universal. Supostamente, qualquer cidadão, qualquer professor poderia concorrer. Em pé de igualdade!

Falta referir que o critério básico para a admissão do concurso foi ser titular de licenciatura em… Ciências da Religião. O Gastão foi o primeiro (aliás, o único) classificado no concurso. Acrescente-se que o Gastão é professor de… Moral.

É preciso acreditar que a crise moral, em que este país está imerso, será civicamente contrariada, debelada, mas não através da Educação que ainda temos. Vale a pena acreditar que outra Educação é possível, cultivar a integridade, pois, como já nos avisava o velho Platão, é curta a distância entre a corrupção moral e a tirania.

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