Esporte versus valores

Prof. Dr. Marcos Garcia Neira
Universidade de São Paulo

 

 

Todos conhecemos histórias de pessoas que conquistaram fama e fortuna à custa do seu talento esportivo. Em algum momento da vida quisemos ser como eles, estar no lugar deles, ser ovacionados e festejados como eles. A mídia com suas imagens, relatos e holofotes constrói ídolos, transformando homens e mulheres em heróis e heroínas. Não é para menos, afinal, à prática esportiva são atribuídos efeitos socialmente desejáveis. Aprendemos a admirar os atletas por sua disciplina, perseverança, cooperação, competitividade etc., o que contribuiu para disseminar o discurso do papel que o esporte tem na formação de valores.

É de se lamentar que essa premissa não resista a uma postura crítica e capitule quando confrontada com alguns argumentos. Chega a ser fácil constatar a ingenuidade do entendimento linear da prática esportiva enquanto experiência formadora de valores positivos. Basta mencionar que nem sempre os atletas, exemplos de excelência em sua atividade, possuem qualidades que possam ser transferidas para ambientes externos às pistas, piscinas, ringues, quadras ou campos.

A partir de observações pouco criteriosas, é possível afirmar que a prática do esporte praticamente impede que valores socialmente desejáveis como respeito mútuo, ética, não discriminação, companheirismo, comportamento democrático, altruísmo e humildade sejam semeados nas arenas de treinamento e competição. Ora, quantas manifestações de aceitação e ajuda já presenciamos durante as competições? Quando assistimos à exaltação ao esforço e dedicação de quem foi derrotado? Temos conhecimento da história de vida daqueles que não venceram ou é permitido a nós conhecer e exaltar apenas os campeões? Quantas vezes já assistimos cenas de violência em eventos esportivos?

Modificando a argumentação, questionamos se algo altamente complexo como a formação de valores poderá simplesmente moldar-se aos códigos em circulação durante uma prática esportiva. É sabido que o desenvolvimento de comportamentos humanos deriva de uma quantidade extrema de interações e interferências entre um número muito grande de unidades que fogem em absoluto a qualquer tentativa de controle. Em qualquer programa de Educação pelo esporte, por exemplo, existe um ou mais professores com formações diferentes, com distintas maneiras de ver a vida e a prática esportiva. Esses educadores trazem sua própria bagagem histórica, cultural e familiar; possuem personalidades, sentimentos e desejos; e dominam uma determinada modalidade que lhes cabe ensinar. Sem prosseguir com mais variáveis – pois são infinitas -, essas pessoas compartilham as atividades com vinte a quarenta crianças e jovens que, por sua vez, também têm sua forma de ver a vida e o esporte; trazem seu próprio repertório e dominam determinados gestos, atitudes e conhecimentos que não são necessariamente os mesmos de seus professores e colegas.

A partir dessa imagem, pensemos em todas as relações que podem acontecer nesse espaço em um dia de aula, uma semana, um mês… e durante um semestre. Pensemos também em todas as variações contextuais que podem intervir nessas relações, dependendo, por exemplo, dos estados de ânimo dos sujeitos, de suas personalidades, de seus valores etc. Pois bem, convenhamos, é difícil esperar que todas as crianças e jovens aprendam exatamente as habilidades afetivas e sociais que seus professores de esporte pretendem ensinar.

Elenor Kunz, na sua obra Transformação didático-pedagógica do esporte, afirma que se o intuito é formar cidadãos, temos por obrigação, no ambiente educativo, transformar o fenômeno social do esporte em uma atividade de interesse real a todos os participantes, devendo ser compreendido não somente na sua visão objetiva como também na subjetiva. Isso significa ter a capacidade de saber se colocar na situação dos outros participantes; ser capaz de visualizar componentes sociais que influenciam todas as ações socioculturais no campo esportivo; saber questionar o verdadeiro sentido do esporte e, por intermédio dessa visão crítica, poder modificar o seu fazer tradicional.

A cidadania eleva o educando à condição de sujeito no seu processo de ensino, formando-o para a participação na vida social, cultural e esportiva, o que significa não somente o desenvolvimento de competências técnicas (saber agir), mas também de conhecimentos (saberes) e convívio com os semelhantes (saber relacionar-se), tais conquistas dar-se-ão unicamente caso a prática esportiva seja permeada pela problematização das situações vividas com um constante incitamento ao diálogo para o encontro de soluções verdadeiramente democráticas.

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