Arquivo mensal: abril 2012

Ampliando fronteiras

Ampliando fronteiras:

Refletir sobre as diferenças e ampliar as fronteiras entre territórios culturais será o mote para esta expedição escolar ao mundo judaico.

 

Primeiras ideias:

Quando definimos a palavra fronteira, acabamos a relacionando com a ideia de limite entre espaços, divisória entre duas ou mais áreas, demarcação… um contorno para separar. Como percebemos no dia a dia o contorno que nos separa? Quais as fronteiras que seus alunos reconhecem na vida da escola e fora dela? É possível fazer de outra forma, isto é, ampliar os contornos para abarcar o diferente? Anote na lousa as respostas para comentar depois.

 

Refletindo sobre valores:  

Nas relações interpessoais, quando as fronteiras são determinadas pelo desconhecimento e pela falta de informação, além de separar, elas produzem intolerância às diferenças, que é exatamente o que nos constitui como indivíduos. Nossa individualidade, tecida na complexidade de nossas histórias pessoais, crenças, etnias, religiões, ideias e valores culturais definem nosso modo de ser e estar no mundo. Reconhecer a existência simultânea de muitas culturas nos permite desenhar novas fronteiras para os afetos e o pensamento. Professor(a), encaminhe as reflexões para a valorização das atitudes de aproximação entre diferentes culturas.

 

Atividade coletiva:

As festas e as narrativas orais revelam muito da cultura que lhes deu origem e são, de certa forma, a memória do mundo. A cultura judaica tem mais de 6 mil anos e é muito rica em celebrações e tradições, contadas através de histórias cheias de humor e sabedoria. Para fazer conhecer um pouco mais sobre essa cultura, apresente aos alunos as principais festas judaicas, que além de comemorar um fato histórico e metafísico, celebram a ligação com a natureza. Por exemplo, no Pessach (Páscoa) comemora-se a saída do Egito, a passagem e a libertação do povo hebreu e também a festa da primavera. Além do Pessach, há outras datas, como, por exemplo: Purim, comemorando a salvação; Shavuót, a revelação da Torá; Rosh Hashaná, o Ano-Novo judaico; Yom Kipur, o dia do perdão; Sucót, a peregrinação pelo deserto; e Simchat Tora, que celebra a entrega dos “Dez mandamentos” a Moisés. Para aprender mais, conheça o site do Centro de Cultura Judaica e o livro ABC do mundo judaico, de Moacyr Scliar, de Edições SM.  

 

Na sala de informática, leve sua turma para navegar pelo site Beit Chabad, no link Kids, nas seções festas e/ou histórias. Convide-os para uma experiência de aprendizagem lúdica, com curiosidade e interesse pela cultura judaica. Na impossibilidade de acessar a internet com todos os alunos, faça uma contação de histórias com contos tradicionais judaicos, disponíveis nesse mesmo site ou nos livros O colombo de Chelem e outras histórias judaicas e O Dom, de Susie Morgenstern, ambos de Edições SM. Em seguida, convide-os para recriar em pequenos grupos a história ou a origem da festa que mais gostaram através de um roteiro escrito ou desenhado. Sugerimos a técnica da animação stop motion, fotografando quadro a quadro os personagens produzidos com massinha de modelar. A apresentação da sequência dessas fotos cria a impressão de movimento. Recomendamos o programa Movie Maker, em que também se pode incluir trilha sonora, textos, título e créditos finais. Todas as animações devem ser apresentadas para a classe com comentários sobre as surpresas e as novas descobertas sobre a cultura judaica. 

 

Sistematizando:

Resgate com os alunos as ideias inicias sobre fronteiras, usando as anotações das primeiras noções da turma sobre o tema. Em seguida, questione-os sobre o quanto conhecer um pouco mais sobre a cultura judaica pôde ampliar a compreensão a respeito dessa cultura. Encaminhe as reflexões para a constatação de que na origem da intolerância e do preconceito pode estar o desconhecimento e a desinformação sobre a cultura do diferente, separado por fronteiras irrefletidas, que geram atitudes baseadas no senso comum. É possível desenhar novas fronteiras para pensamentos e afetos? Para continuar as reflexões e ampliar os contornos da diversidade que nos constitui como brasileiros, que tal promover um festival de animações e apresentar as produções da turma para toda a escola e a comunidade? Seus alunos podem ajudar na organização do evento e contar sobre as descobertas que os fizeram ampliar fronteiras e possibilidades para um mundo onde todos devem viver em paz. 

 

Sites indicados:

– Centro de Cultura Judaica: conhecer mais sobre a história, festas e símbolos do povo judeu http://www.culturajudaica.org.br/

 

– Revista Morasha http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=129&p=2

 

– Filme Hagadá, animação stop motion (25 minutos) http://www.koshermap.com.br/pt/item/show.html?id=6816

 

– “História do judeu no Brasil: uma compilação de artigos” http://www.piracuruca.com/historia_do_brasil_judaismo.pdf

 

– Beit Chabad – Atividades e jogos temáticos para crianças http://www.chabad.org.br/kids/kids.htm

Esporte versus valores

Prof. Dr. Marcos Garcia Neira
Universidade de São Paulo

 

 

Todos conhecemos histórias de pessoas que conquistaram fama e fortuna à custa do seu talento esportivo. Em algum momento da vida quisemos ser como eles, estar no lugar deles, ser ovacionados e festejados como eles. A mídia com suas imagens, relatos e holofotes constrói ídolos, transformando homens e mulheres em heróis e heroínas. Não é para menos, afinal, à prática esportiva são atribuídos efeitos socialmente desejáveis. Aprendemos a admirar os atletas por sua disciplina, perseverança, cooperação, competitividade etc., o que contribuiu para disseminar o discurso do papel que o esporte tem na formação de valores.

É de se lamentar que essa premissa não resista a uma postura crítica e capitule quando confrontada com alguns argumentos. Chega a ser fácil constatar a ingenuidade do entendimento linear da prática esportiva enquanto experiência formadora de valores positivos. Basta mencionar que nem sempre os atletas, exemplos de excelência em sua atividade, possuem qualidades que possam ser transferidas para ambientes externos às pistas, piscinas, ringues, quadras ou campos.

A partir de observações pouco criteriosas, é possível afirmar que a prática do esporte praticamente impede que valores socialmente desejáveis como respeito mútuo, ética, não discriminação, companheirismo, comportamento democrático, altruísmo e humildade sejam semeados nas arenas de treinamento e competição. Ora, quantas manifestações de aceitação e ajuda já presenciamos durante as competições? Quando assistimos à exaltação ao esforço e dedicação de quem foi derrotado? Temos conhecimento da história de vida daqueles que não venceram ou é permitido a nós conhecer e exaltar apenas os campeões? Quantas vezes já assistimos cenas de violência em eventos esportivos?

Modificando a argumentação, questionamos se algo altamente complexo como a formação de valores poderá simplesmente moldar-se aos códigos em circulação durante uma prática esportiva. É sabido que o desenvolvimento de comportamentos humanos deriva de uma quantidade extrema de interações e interferências entre um número muito grande de unidades que fogem em absoluto a qualquer tentativa de controle. Em qualquer programa de Educação pelo esporte, por exemplo, existe um ou mais professores com formações diferentes, com distintas maneiras de ver a vida e a prática esportiva. Esses educadores trazem sua própria bagagem histórica, cultural e familiar; possuem personalidades, sentimentos e desejos; e dominam uma determinada modalidade que lhes cabe ensinar. Sem prosseguir com mais variáveis – pois são infinitas -, essas pessoas compartilham as atividades com vinte a quarenta crianças e jovens que, por sua vez, também têm sua forma de ver a vida e o esporte; trazem seu próprio repertório e dominam determinados gestos, atitudes e conhecimentos que não são necessariamente os mesmos de seus professores e colegas.

A partir dessa imagem, pensemos em todas as relações que podem acontecer nesse espaço em um dia de aula, uma semana, um mês… e durante um semestre. Pensemos também em todas as variações contextuais que podem intervir nessas relações, dependendo, por exemplo, dos estados de ânimo dos sujeitos, de suas personalidades, de seus valores etc. Pois bem, convenhamos, é difícil esperar que todas as crianças e jovens aprendam exatamente as habilidades afetivas e sociais que seus professores de esporte pretendem ensinar.

Elenor Kunz, na sua obra Transformação didático-pedagógica do esporte, afirma que se o intuito é formar cidadãos, temos por obrigação, no ambiente educativo, transformar o fenômeno social do esporte em uma atividade de interesse real a todos os participantes, devendo ser compreendido não somente na sua visão objetiva como também na subjetiva. Isso significa ter a capacidade de saber se colocar na situação dos outros participantes; ser capaz de visualizar componentes sociais que influenciam todas as ações socioculturais no campo esportivo; saber questionar o verdadeiro sentido do esporte e, por intermédio dessa visão crítica, poder modificar o seu fazer tradicional.

A cidadania eleva o educando à condição de sujeito no seu processo de ensino, formando-o para a participação na vida social, cultural e esportiva, o que significa não somente o desenvolvimento de competências técnicas (saber agir), mas também de conhecimentos (saberes) e convívio com os semelhantes (saber relacionar-se), tais conquistas dar-se-ão unicamente caso a prática esportiva seja permeada pela problematização das situações vividas com um constante incitamento ao diálogo para o encontro de soluções verdadeiramente democráticas.

Livro do Mês – Abril

 

Por que elegemos O golem do Bom Retiro como livro do mês de abril?

Diariamente assistimos estarrecidos às imagens que denunciam nos quatro cantos do mundo o preconceito e a violência entre diversos grupos socioculturais nas escolas e fora delas, seja em grandes metrópoles ou nas pequenas cidades. Em março deste ano, o Governo brasileiro manifestou seu repúdio ao ato de violência que vitimou crianças e funcionários de uma escola judaica, praticado na cidade de Toulouse, na França. É certo que desaprovamos a violência praticada sobre quaisquer pretextos. Entretanto, quanto de nossa indignação frente a essas intolerâncias se transforma, no contexto escolar, em ações para a cultura da paz? Nessa perspectiva, Ariel, Moisés, Riri, Nico, Jae-Ho, Garrafa e Ângelo, personagens do livro O golem do Bom Retiro, nos convocam a refletir sobre a diversidade cultural e religiosa que nos constitui como brasileiros. A leitura propõe questões contemporâneas sobre ética e cidadania, abordando os temas da diferença, bioética e tribos urbanas de maneira rica e complexa, de forma a vislumbrar um mundo mais tolerante.

 
Clique aqui e conheça o projeto de leitura que Edições SM elaborou para o trabalho com esse livro.

Gratidão

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

Desta vez, trago-vos algumas histórias e fico grato pelo tempo que possa ser dispensado à sua leitura. Falam-nos de gratidão e poderão fazer-nos pensar no quanto a gratidão fará, ou não, parte das nossas vidas. Estou certo de que sabereis extrair a moral das histórias.

Uma brasileira, sobrevivente de campo de extermínio nazista, contou que, por duas vezes, esteve numa fila que a encaminhava para a câmara de gás. E que, nas duas vezes, o mesmo soldado alemão a retirou da fila.

Aristides de Sousa Mendes foi cônsul de Portugal na França. Quando as tropas de Hitler invadiram esse país, Salazar ordenou que não se concedesse visto para quem tentasse fugir do nazismo. Contrariando o ditador, Aristides salvou dez mil judeus de uma morte certa. Pagou bem caro pela sua atitude humanitária; Salazar destituiu-o do cargo e o fez viver na miséria até ao fim da vida. Diz um provérbio judeu que quem salva uma vida salva a humanidade. Em sinal de gratidão, há vinte árvores plantadas em sua memória no Memorial do Holocausto, em Jerusalém. E Aristides recebeu dos israelenses o título de “justo entre as Nações”, o que equivale a uma canonização católica.

Quando um empregado de um frigorífico foi inspecionar a câmara frigorífica, a porta se fechou e ele ficou preso dentro dela. Bateu na porta, gritou por socorro, mas todos haviam saído para suas casas. Já estava muito debilitado pela baixa temperatura quando a porta se abriu e o vigia o resgatou com vida. Perguntaram ao vigia-salvador: Por que foi abrir a porta da câmara, se isso não fazia parte da sua rotina de trabalho? Ele explicou: Trabalho nesta empresa há 35 anos, vejo centenas de empregados que entram e saem todos os dias, e esse é o único funcionário que me cumprimenta ao chegar, e se despede ao sair. Hoje ele me disse “bom dia” ao chegar. E não percebi que se despedisse de mim. Imaginei que poderia lhe ter acontecido algo. Por isso o procurei e o encontrei.

A minha amiga Ângela enviou-me uma mensagem que a sua neta Giovanna redigiu para um ente querido que falecera: (…) quero falar sobre o presente de Rei. Acredito que não possa ser algo material, pois não posso levá-lo com a morte. Meu presente de Rei é uma lembrança. Um dos grandes presentes que a vida nos deu foi o tempo passado ao lado desse grande amigo. Seu coração e sua casa sempre foram um grande albergue, recebendo cunhados, amigos e sobrinhos, como se fossem seus próprios filhos. Obrigado por ter estado presente em nossas vidas.

Era uma vez… dois amigos: Amir e Farid. Durante uma viagem, Farid resolveu tomar um banho e foi arrastado pela correnteza do rio. Amir atirou-se no rio e o salvou. Grato, Farid ordenou a seu escravo que escrevesse numa pedra, em letras grandes: “aqui, com risco de perder sua vida, Amir salvou o seu amigo Farid”. Mais tarde, numa discussão, Amir esbofeteou Farid. Este se aproximou da margem do rio e escreveu na areia: “aqui, por motivos tolos, Amir esbofeteou Farid”. O escravo, que escrevera na rocha a frase anterior, ficou intrigado: Senhor, quando fostes salvo, mandastes gravar o feito numa pedra. Agora escreveis na areia a ofensa recebida. Por que agis assim? Farid olhou o escravo e respondeu: “os atos de amor devem ser gravados na rocha, para que todos os que tiverem oportunidade de tomar conhecimento deles procurem imitá-los. Porém, quando recebermos uma ofensa, devemos escrevê-la na areia, bem perto das águas, para que seja por elas levada.

Talvez a gratidão devesse ser uma rotina nas nossas vidas, algo indissociável da relação humana, mas talvez ande arredada dos nossos quotidianos gestos. E se começássemos cada dia dando gracias a la vida, como faria a Violeta?

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