Arquivo mensal: março 2012

Os processos psicológicos de construção de valores

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

 

 

Afinal, como cada ser humano se apropria de determinados valores e não de outros? Por que algumas pessoas são violentas e outras não? Por que algumas pessoas vivem para servir aos demais e outras são egocêntricas e só agem em seu próprio interesse?

A psicologia fornece elementos importantes para a compreensão da natureza e da vida humanas em suas relações com o mundo social, natural e cultural em que vivemos, e tais conhecimentos são ferramentas fundamentais para aqueles que se preocupam com a Educação ética das novas gerações.

O trabalho do psicólogo e epistemólogo suíço Jean Piaget e seu texto “Les relations entre l’intelligence et l’affectivité dans le développement de l’enfant” (1954) dá pistas importantes para essa compreensão. Nele, Piaget evidencia que os valores pertencem à dimensão geral da afetividade humana e são construídos a partir das projeções afetivas que o sujeito faz sobre os objetos ou pessoas.

Ampliando essa visão, hoje afirmo que os valores são construídos a partir da projeção de sentimentos positivos que o sujeito faz sobre objetos, e/ou pessoas, e/ou relações, e/ou sobre si mesmo. Com isso, entende-se que um sujeito pode projetar sentimentos positivos sobre: objetos (ex: a escola); pessoas (ex: um amigo ou o pai, ou o professor); relações (ex: a forma carinhosa com que um homem trata uma mulher ou um professor a seus alunos); sobre si mesmo (e aqui temos a base da autoestima).

Tentando explicitar a definição em linguagem bem simples, valor no sentido psicológico é aquilo que gostamos, que valorizamos e, por isso, pertencente à dimensão afetiva constituinte do psiquismo humano.

Assumindo o pressuposto epistemológico interacionista e construtivista trazido por Piaget, deve-se recusar tanto as teses aprioristas de que os valores são inatos quanto as teses empiristas de que são resultantes das pressões do meio social sobre as pessoas. Nessa concepção, de um construtivismo radical, os valores nem estão predeterminados nem são simples internalizações (de fora para dentro), mas resultantes das ações do sujeito sobre o mundo objetivo e subjetivo em que vive.

Essa ideia de um sujeito ativo é que permite entender o princípio de que os valores são resultantes de projeções afetivas feitas nas interações com o mundo, em oposição à ideia de simples internalização dos valores, sofrida por sujeitos “passivos”, moldados pela sociedade, pela cultura e pelo meio em que vivem. É a ação do sujeito (representada pelo princípio de projeção afetiva) que nos ajuda a entender por que duas pessoas que vivem em um “mesmo” ambiente, na mesma sociedade, podem construir valores tão diferentes uma da outra. Se o processo fosse de simples internalização a partir da sociedade e da cultura, entendo que teríamos uma maior homogeneidade nos valores, e isso não é o que se constata na realidade.

Se entendemos que o valor se refere àquilo que uma pessoa gosta, valoriza, a valência positiva dos sentimentos torna-se essencial para que o alvo da projeção seja considerado um valor pelo sujeito. Ou seja, uma ideia ou uma pessoa tornar-se-ão um valor para o sujeito se ele projetar sobre elas sentimentos positivos. Em direção contrária, as pessoas também projetam sentimentos negativos sobre objetos, e/ou pessoas, e/ou relações, e/ou sobre si mesmas. Neste caso, o que se constrói, também com uma forte carga afetiva envolvida, é o que pode ser chamado de contra-valores. Assim, estes se referem àquilo de que não gostamos, de que temos raiva, que odiamos, por exemplo.

Fazendo uma analogia com a escola, se a criança gosta daquele ambiente, se é bem tratada, respeitada, se ela vê sentido no que aprende ali, a instituição escolar pode virar alvo de projeções afetivas positivas e tornar-se um valor para ela. Essa criança, inclusive, terá o desejo de voltar à escola todos os dias. Caso contrário, se ela é constantemente humilhada, desrespeitada, questionada em suas capacidades e competências intelectuais e sociais, é bem provável que esse espaço seja alvo de projeções afetivas negativas, que não seja valorizado, que não se constitua como um valor para ela, e, sim, um contra-valor. Nesse caso, por ser um espaço odiado, desqualificado, ele pode ser depredado, pichado, ignorado.

Espero ter deixado claro nas linhas acima que em nossa história de vida cada ser humano constrói um sistema de valores, a partir das interações que estabelece com o mundo e consigo mesmo desde o nascimento, e que tais valores são resultado da projeção de sentimentos positivos sobre objetos, pessoas, relações e sobre seus próprios pensamentos e ações.

Entender o funcionamento psicológico do ser humano e como cada pessoa se relaciona consigo mesma e com o mundo à sua volta pode ajudar na construção de procedimentos e estratégias educativas mais “eficientes”, no sentido de permitir a construção efetiva de valores éticos desejáveis por uma sociedade que almeja promover o desenvolvimento humano calcado na justiça social, na igualdade, na equidade e na felicidade para cada um e todos os seres humanos.

 

Livro do Mês – Março

 

Por que elegemos Se liga, Charles! como livro do mês de março?

Quando as relações interpessoais na escola podem superar comportamentos padronizados e tecer laços de amizade? Benjamin e Charles são alunos da mesma turma e mal se conhecem, apesar de sentarem um na frente do outro. Os dois garotos, com seus medos e inseguranças pessoais, experimentam uma circunstância inesperada que se transforma em convivência, parceria, cumplicidade e respeito. A leitura de Se liga, Charlesoferece uma oportunidade para discutir com seus alunos a temática do bullying, assim como refletir sobre o sentimento do medo das perdas pessoais.

Clique aqui e conheça o projeto de leitura que Edições SM elaborou para o trabalho com esse livro.

Felicidade

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

O meu coração estava preso às crianças, a sua felicidade era a minha felicidade – elas deviam ler isso na minha fronte, perceber isso nos meus lábios, a cada instante do dia.

(Pestalozzi)

 

O Guardian publicou um estudo da London School of Economics, no qual se defende que o principal objetivo das escolas deverá ser o de ajudar a criar pessoas bondosas e felizes. O estudo recomenda que se intensifique a educação moral dos jovens, mostrando-lhes que a felicidade não se alcança quando se concebe o mundo como objeto de satisfação pessoal, mas quando existe preocupação pelo bem-estar do próximo.

Um recente inquérito, realizado junto de pais de alunos de Belo Horizonte, confirma a conclusão do estudo. Inquiridos sobre aquilo que mais desejavam que a escola desse aos seus filhos, os pais responderam: mais do que aprender conteúdos, que também é preciso aprender, queremos que os nossos filhos sejam felizes na escola.

A resposta majoritária só surpreenderá quem não conheça, por dentro, as escolas que ainda temos. Nelas reina a obsessão por uma competitividade que deteriora a relação e produz solidão, que é o mesmo que dizer infelicidade. Em contraste com o desejo explicitado pelos pais dos alunos, os projetos político-pedagógicos raramente se referem à felicidade como valor, ou objetivo a alcançar. E as práticas predominantes vão na contramão desse desiderato. Diz-nos Ortenila Sopelsa que “dificilmente encontramos uma criança com idade escolar que não anseie em entrar na escola, cheia de sonhos e fantasias. Mas a grande maioria das crianças sente a escola como algo que oprime, ridiculariza e discrimina”. Urge, pois, converter as nossas escolas em espaços de bem-estar, onde não se fragmente a realidade, nem se banalize os gestos de humanidade. Um ambiente caracterizado pela serenidade, pelo cuidar da relação. Numa relação de um Eu com um Tu, na qual o professor seja aquilo que é, seja tão autêntico quanto for possível e o Tu não seja tomado por mero objeto.

Infelizmente, muitos pais agravam ainda mais os efeitos de uma escola desumanizada, quando convencem a prole de que a felicidade é um direito adquirido e de que os filhos são merecedores de tudo sem esforço, quando a felicidade não depende daquilo a que, apenas por estarmos vivos, temos direito e nos falta, mas do bom uso que fazemos daquilo que temos. Num tempo de inflação hedonista, torna-se premente a tarefa de aprender a saber lidar com as frustrações pessoais.

Atingimos um estado de espírito, que pode ser considerado de felicidade, quando aliamos a realização pessoal à aprendizagem das coisas, concretizada em comum – a minha realização é realização com os outros. Felicidade é fazer amigos, dar-se sem medida, aceitar e ser aceito, viver em harmonia consigo e com os outros.

“Vamos fazer uma escola feliz” foi o nome que as crianças deram ao primeiro jornal escolar da Escola da Ponte. Com os alunos, compreendemos que há muitos modos de fazer escolas felizes. O Nelson chegava à escola pontualmente atrasado. Mas, naquele dia, somente se dignou chegar ao fim da manhã. Quis saber a razão de tamanho atraso. O Nelson esclareceu:

“Olha, professor, nesta noite, ninguém conseguiu dormir, lá em casa. Os ratos roeram uma orelha do meu irmão menor. Ele estava cheio de sangue, gritou muito, e a minha mãe foi com ele para o hospital. Eu tive de cuidar dos meus irmãos, até ela voltar…”

“Mas por que não ficaste em casa, a descansar? Por que vieste para a escola, amigo Nelson?” – perguntei.

“Olha, professor, eu vim para a escola porque, quando venho para a escola, pelo caminho, sinto uma coisa cá dentro… Olha, professor, o que eu sinto cá dentro parece mesmo… alegria!”

A inserção de sentimentos e afetos no currículo escolar

Profa. Dra. Valéria Amorim Arantes
Faculdade de Educação
Universidade de São Paulo

 

Inúmeras pesquisas vêm demonstrando que o funcionamento psíquico humano não é composto somente pelos aspectos cognitivos, mas que os sentimentos e emoções também configuram nosso pensamento. Assim, a pergunta que fica no ar é “por que pensar em uma escola que privilegia somente um destes aspectos?”. Defendo a ideia de que o tema da afetividade e das emoções precisa ser incluído na pauta educacional e, portanto, que a dimensão afetiva da personalidade humana precisa ser trabalhada na escola da mesma forma como se trabalham a matemática, a língua, as ciências etc. Este é o tema que quero abordar neste blog.

De acordo com Montserrat Moreno, autora espanhola, no livro “Temas Transversais em educação”, o modelo educacional adotado por nossas escolas tem origem na Grécia clássica há mais de 2.000 anos, e os conteúdos selecionados por aquela cultura, que perduram até hoje, visavam o desenvolvimento apenas da dimensão cognitiva. Daí a prioridade dada à matemática, à língua e às ciências no currículo das escolas.

Entendo que não há nada que justifique voltar-se a educação para somente este aspecto da natureza humana, desconsiderando-se outros, como a afetividade. É preciso ter coragem para mudar a educação formal e tornar o conhecimento dos afetos e emoções em conteúdos a serem construídos por alunos e alunas.

Como educadores, devemos nos comprometer com a formação de jovens que, ao mesmo tempo que conheçam os conteúdos da ciência contemporânea, também reflitam, por exemplo, sobre os limites éticos da aplicação dessa ciência; pessoas conscientes de seu papel para a construção de uma sociedade mais justa e solidária; que saibam lidar com seus próprios sentimentos e afetos; e que saibam lutar (virtuosamente) pela felicidade própria e das outras pessoas.

Do ponto de vista da prática educativa, acreditamos que um dos caminhos possíveis para se atingir tais objetivos passa pela inserção transversal de temáticas relacionadas à afetividade no currículo escolar. Uma educação que tenha como objeto de construção de conhecimentos também os sentimentos pessoais e interpessoais, trabalhados na escola não como apêndice e sim como uma finalidade da estrutura curricular, pode exemplificar essa nova maneira de conceber a educação. Abordar os sentimentos humanos como um conteúdo escolar, de forma sistematizada, é algo insólito em nossa realidade educacional.   

No livro Falemos de sentimentos: a afetividade como um tema transversal, Montserrat Moreno exemplifica como pode ser organizado um programa curricular que atenda a esses objetivos. Ela demonstra que a educação da afetividade precisa levar em consideração a vertente racional e emotiva dos conceitos e fatos que os alunos e as alunas estão aprendendo, dispondo de um planejamento de atividades e técnicas didáticas que incluam e detalhem os conteúdos e objetivos curriculares específicos a cada uma delas.

Assim, entendo que um planejamento didático e pedagógico elaborado a partir dessa concepção de educação, e sua consequente realização no cotidiano das salas de aula, poderá levar alunos e alunas a construírem personalidades mais autônomas, justas e solidárias, a serem mais conscientes de si e de seus próprios sentimentos.

II Prêmio Experiências Educacionais Inclusivas

Sua escola promove a Educação inclusiva? Então é hora de contar para todo mundo!

O II Prêmio Experiências Educacionais Inclusivas – a Escola Aprendendo com as Diferenças destaca e divulga experiências inovadoras e bem sucedidas sobre inclusão escolar de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades, realizadas nas escolas públicas de Educação básica, por gestores, educadores, professores e estudantes. Nesta segunda edição, serão premiadas três categorias: escolas públicas, secretarias de Educação e estudantes de escolas públicas, além de menção honrosa à experiência inclusiva de Educação infantil. As inscrições terminam em 16 de março de 2012.

Quer saber mais? Visite o site http://peei.mec.gov.br/index.php

Livro do Mês – Fevereiro

 

Por que elegemos O chamado de Sosu como livro do mês de fevereiro?

A incrível aventura de Sosu, o menino africano que mora numa aldeia entre o mar e a laguna, transforma sua vida e nos convida a transformar a nossa… Corajoso e determinado, Sosu supera sua fragilidade física para salvar do perigo iminente as crianças e idosos da aldeia. Você já parou para pensar quais as atitudes impensadas e preconceituosas que nos ensinam a “não olhar” para as pessoas deficientes na rua? Quase sempre, por compaixão ou medo do diferente, crescemos “míopes”, sem perceber que a exclusão não tem sentido. A leitura dessa aventura pode evitar ações discriminatórias e contribuir na aceitação das diferenças na escola e para além dela.

Clique aquie conheça o projeto de leitura que Edições SM elaborou para o trabalho com esse livro.

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