Arquivo mensal: fevereiro 2012

Esperança

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

 

O que faz andar a estrada? É o sonho.
Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.

(Mia Couto)

 

Godlad dizia que todo educador é um otimista. Ouso discordar. Estou muito mais próximo da convicção do amigo Rubem, que nos diz ser o educador um esperançoso. Porque o otimismo é da natureza do tempo e a esperança é da natureza da eternidade, e, entre o sim e o não, muita coisa existe… existe a esperança de um tempo novo, um tempo de atos criadores e de vida gratuita.

As atas da Conferência de Ministros da Educação, há quarenta anos realizada em Caracas, reza assim: “toma corpo a ideia de uma educação libertadora, que contribua para formar a consciência crítica e estimular a participação responsável do indivíduo nos processos culturais, sociais, políticos e econômicos”. Três anos antes, a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, reunida em Medellín, também registrava em ata: “A Educação em todos os seus níveis deve chegar a ser criadora, pois devemos antecipar o novo tipo de sociedade que buscamos na América Latina”. Decorridas quatro décadas, move-nos a esperança de que, algum dia, essas vozes sejam ouvidas.

Esperança, em seu sentido mais genuíno, significa fé na bondade da natureza humana, significa confiar, acreditar ser possível ensinar (e aprender!) o diálogo, o reconhecimento da diversidade, a amorosidade, a solidariedade, a alegria, a justiça, a ética, a responsabilidade social, o respeito, a cidadania, a humanização da escola. Utopia! – exclamarão alguns. Mas, como nos avisa Robert Musil, a utopia é uma possibilidade que pode efetivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias que obstam à sua realização…

Knecht, personagem criada por Herman Hesse, desejava educar uma criança que ainda não tivesse sido deformada pela Escola, instituição que se mantém conivente com a perpetuação de um estado de desequilíbrio entre um imenso progresso técnico e a nossa sobrevivência numa espécie de proto-história da humanidade, feita de sofrimento humano e corações vazios, na qual ainda precisamos de aparatos socias como tribunais e prisões. É bem verdade que uma modernidade prometeica fez-nos desesperançosos, mas mantenhamos a esperança de chegarmos vivos ao fim da vida… Escutemos o Mestre Agostinho, quando nos diz ser possível que as crianças sejam tão livres e desenvolvidas, que possam governar o mundo pela inteligência e imaginação, e não por saberem muita aritmética ou ortografia. Mestre Agostinho tinha esperança de que a criança grande, que habita em cada um de nós, pudesse dar ao mundo o exemplo do que deve ser “vida gratuita”, para que ninguém tenha de pagar para viver e trabalhar para viver, para que ninguém mais passe a vida amuralhado e encerrado entre grades e renasça para ser aquilo que devia ser.

“Somos do tamanho dos nossos sonhos”, como afirmou o Fernando Pessoa. No tempo em que o projeto da Escola da Ponte teve início, era a esperança que nos movia. Diziam-me que, com professores como aqueles que tínhamos, na época, não seria possível fazer avançar o projeto. Mas foi com aqueles professores, acreditando na capacidade de se transcenderem, que o projeto da Ponte começou. Foi esperançosamente que ele prosperou. Nóis pode!… – como diria o amigo Tião.

 

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O desafio da indisciplina na sala de aula

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

 

Os distúrbios disciplinares são um dos grandes problemas pedagógicos e morais da atualidade e, junto da violência (temas muitas vezes inter-relacionados), vêm comprometendo a busca por uma educação de qualidade.

Em primeiro lugar, precisamos entender o que é disciplina a partir de seu avesso: a indisciplina. Buscando o sentido do termo indisciplina em dicionários de língua portuguesa encontramos definições como “todo ato ou dito contrário à disciplina que leva à desordem, à desobediência, à rebelião”. E o que seria a disciplina? Podemos encontrar definições comuns como “regime de ordem imposta ou livremente consentida que convém ao funcionamento regular de uma organização (militar, escolar, etc)”. Grosso modo, podemos entender, portanto, que a indisciplina relaciona-se com o não cumprimento das leis, normas e regras estabelecidas na sociedade por parte do indivíduo ou por grupos organizados para determinados fins, como é o caso da escola. Nesse sentido, quando se fala de indisciplina dentro da escola, pode-se falar de desrespeito às regras estabelecidas. No caso da disciplina, de forma implícita ou explícita, é entendida a partir do respeito que as pessoas têm pelos instrumentos normativos criados para regular as relações dentro das instituições sociais. Existe muita diferença se tal respeito é obtido de forma impositiva ou se advém de uma decisão consciente de cada pessoa que decide cumprir determinada regra, o que discutiremos adiante, mas o importante é perceber que ao falar de disciplina estamos nos remetendo a uma perspectiva de respeito às regras sociais.

É importante ressaltar, no entanto, que quando falamos de indisciplina não estamos nos referindo a cenas corriqueiras como a de um aluno que se levanta da carteira durante a aula, que masca chiclete ou que usa boné em sala. Estamos nos referindo a situações como aquela observada em uma escola pública por uma ex-orientanda de mestrado, Cândida Daltro: Os alunos entraram agitados do recreio. Notei que a professora estava um tanto assustada. Ela recuou da porta, liberando a passagem e pediu que todos sentassem e se acalmassem. Um aluno deitou-se na mesa da professora. Esta, por sua vez, dirigiu-se até sua mesa e pediu licença ao aluno para poder sentar-se em sua cadeira para preencher a ficha de frequência dos alunos. O aluno se levantou e foi até o final da sala. Reuniu algumas carteiras, uma ao lado da outra, deixando-as no tamanho de uma mesa de pingue-pongue. Depois, convidou alguns colegas para jogarem pingue-pongue com ele…

Situações como essa nos levam a evitar explicações simples, ou soluções simplistas para a questão das indisciplinas escolares. Um dos desafios da escola contemporânea está exatamente em compreender como as relações entre professores e estudantes chegaram a tal nível em muitas escolas e quais caminhos podem ser trilhados para o enfrentamento de tais questões.

A indisciplina e a violência que vêm tirando o sono dos profissionais da educação não é problema isolado, cujas causas possam ser encontradas ou no aluno ou no professor ou nas relações. A raiz do problema está na própria concepção do que é educação, de qual é o papel da escola na sociedade e de como devem ser constituídas as relações professor-aluno em um mundo que vai, cada vez mais, se conscientizando da importância da liberdade, da justiça e do respeito aos direitos e deveres individuais e coletivos.

Enfrentar “as indisciplinas” da vida exige dos profissionais da educação uma nova postura, democrática e dialógica, que entenda os alunos não mais como sujeitos subservientes ou como adversários que devem ser vencidos e dominados. O caminho é reconhecer os alunos como possíveis parceiros de uma caminhada política e humana que almeja a construção de uma sociedade mais justa, solidária e feliz. Para isso, as relações na escola devem ser de respeito mútuo, a diversidade dos interesses pessoais e coletivos deve ser valorizada, e a escola deve buscar construir uma realidade que atenda aos interesses da sociedade e de cada um de seus membros.

Dada a complexidade e importância do tema, voltarei a ele posteriormente.

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