Arquivo mensal: novembro 2011

Coerência

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

“Valores falsos e palavras enganosas: esses são os piores inimigos para os mortais.”

(Nietzsche)

Ser coerente será apenas ser congruente, estabelecer concordância entre ideias e fatos? No contexto escolar, talvez a coerência assuma a forma de fidelidade a princípios… Porém, em nome da verdade (palavra rara nos projetos político-pedagógicos das escolas), pode-se dizer que valores abundantes no discurso pedagógico raramente se traduzem em atitudes, talvez por não serem passíveis de concretização no contexto de uma sala de aula. Por exemplo: se o professor tem dever de obediência hierárquica, se não é autônomo, como poderá educar em autonomia? Ninguém dá aquilo que não possui. Se a autonomia é algo que se exerce em relação a outrem e o professor está sozinho na sala de aula, como poderá ensinar autonomia? O professor não ensina aquilo que diz; ele transmite aquilo que é.

A mudança das instituições processa-se a partir da transformação das pessoas que as compõem e mantêm. Se o professor pretende despertar sentimentos de respeito ou de responsabilidade nos seus alunos, precisa colocar esses sentimentos nas suas atitudes. Por que ficar entre o discurso da mediocridade e a linguagem do gênio, por que ficar no meio-termo? Schweitzer foi coerente: abandonou o conforto da cidade, foi selva adentro e consumou ideais.

Cortázar escreveu que uma ponte só é verdadeiramente uma ponte quando alguém a atravessa. Tão importante como escutar uma palestra ou ler um livro é escutar a si próprio e verificar a coerência entre o ato e a teoria. E saber fundamentar aquilo que se faz, assumindo compromissos. A teoria converte-se em ação quando assumida em situações reais.

Precisamos de menos visionários e de mais coerência praxeológica. Dizia Kurt Lewin: “teoria sem prática é viajar no vazio, prática sem teoria é viajar no escuro”. Sabemos que a pedagogia age numa fronteira tênue entre intenção e gesto, pelo que não deveremos preocupar-nos apenas com grades curriculares – estejamos atentos aos modos de trabalho, que deverão considerar o ambiente social em que o aluno vive. “A escola é apenas um momento da educação; a casa e a praça são os verdadeiros estabelecimentos pedagógicos”, dizia-nos Pestalozzi. Não nos esqueçamos da necessidade de harmonizar valores do projeto escolar com os valores do projeto familiar (mesmo que ninguém o tenha escrito…).

Se nos lares e nas ruas escasseia a tranquilidade e a reflexão, como pretender que os nossos alunos se mantenham quietos e calados? Se há professores que se atropelam ao falar e sussurram ao pé do ouvido do colega do lado, como poderão exigir dos seus alunos o levantar a mão para solicitar a sua vez de falar? Essa postura de cidadania básica não é comum no decurso de reuniões de professores… E a incoerência pode gerar situações de embaraço: Ó professora, faça o favor de jogar fora a pastilha elástica. Nós somos proibidos de a usar!

A velha história é contada assim: Aquele barco a remos fazia a travessia de um rio. Num dos remos, tinha escrita a palavra acreditar; no outro, a palavra agir. O barqueiro explicou porquê. Usou o remo, no qual estava escrito acreditar, e o barco começou a dar voltas, sem sair do mesmo lugar. Depois, usou o remo em que estava escrito agir e o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante. Quando usou os dois remos, em um mesmo movimento, o barco navegou até à outra margem. Não “remou contra a maré” ou ao “sabor da corrente”. Uniu duas margens pelo impulso da escolha que lhe imprimiu um rumo coerente.

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Livro do Mês – Novembro

Por que elegemos O menino que florescia como livro do mês de novembro?

Vicente Cavaleira e Angelina Del Valle são crianças que, apesar das diferenças, constroem na escola uma amizade delicada e sensível. Vicente gostava de ler e de pensar. Angelina era afável e muito observadora. Entre realidade e fantasia, o encontro dos dois personagens nos convoca a repensar questões cotidianas sobre o preconceito que gera exclusão e a aceitação das diferenças, premissas importantes para a construção de uma convivência respeitosa na escola. O Menino que florescia é um convite para fazer brotar as relações de amizade e companheirismo entre os estudantes.

Clique aqui e conheça o projeto de leitura que Edições SM elaborou para o trabalho com esse livro.

Alfabetização e educação em valores

Silvia M. Gasparian Colello
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

No contexto da escola tradicional, o ensino da língua escrita configura-se de modo mecânico, não raro reduzindo o ler e escrever aos processos de decodificação e codificação. Concebida como pré-requisito para a vida escolar, a alfabetização aparece vinculada aos objetivos estritamente didáticos (o ler para aprender e o escrever para comprovar o aprendizado) e às práticas mecânicas (como as situações de cópia e silabação), que condicionam uma relação reducionista com o mundo letrado. Nas cartilhas e livros didáticos as formulações artificiais como “O boi bebe e baba” ou “Vovô viu a uva” parecem legítimas em nome de uma racionalidade do ensino, enquanto que a ênfase na ortografia e gramática acaba por distanciar o sujeito da sua própria língua. Em nome da imposição da norma culta, as práticas escolares rechaçam a pluralidade linguística, discriminam os falantes e, com eles, também seus valores e modos de vida.

O fenômeno do analfabetismo funcional, que atinge um a cada cinco brasileiros, é, entre outros fatores, reflexo de uma escola que, ao ensinar a ler e escrever, deixou de investir na formação do sujeito leitor e escritor. Paradoxalmente, o esforço para alfabetizar, marcado por práticas repetitivas e sem significado, parece trair a natureza essencialmente comunicativa da língua; um ensino que silencia, rouba a vontade de aprender e inibe a inserção do estudante no mundo letrado. O texto abaixo, produzido por um aluno de 2º ano do Ensino Fundamental, é um exemplo simbólico desta realidade:

 

Ao evidenciar as práticas da escrita mecânica, o exemplo é também oportuno para ilustrar os mecanismos de domesticação do comportamento na escola. Que triste a realidade de um aluno que ajusta o seu comportamento pelo medo do castigo que é a reprodução linguística! Nesse sentido, a imposição do silêncio, o condicionamento de uma postura moral (o certo e o errado, o que se deve ou não fazer em classe), a submissão ao autoritarismo e à língua aprisionada parecem estar em sintonia na mesma lógica de uma cultura escolar que hoje merece ser problematizada.

Na revisão dos paradigmas educacionais, a aproximação das duas metas aparentemente distantes e distintas – o ensino da língua escrita e a educação em valores – parece uma oportunidade privilegiada para se repensar a complexidade do ensino e as diretrizes do projeto de formação humana.

Partindo do princípio de que “a escrita é a arte de aprisionar a mão para libertar a idéia”¹, é possível vislumbrar o potencial da língua como recurso para a reflexão e a interação com o mundo, o que, obviamente, supera a dimensão instrumental de transmitir conhecimentos ou regras. Um recurso certamente indispensável para a formação moral se o que queremos não é a passividade de um aluno que se conforma com as normas da escola ou da sociedade. No esforço para repudiar a escrita aprisionada e a moral domesticada, importa defender as práticas linguísticas como mecanismos constitutivos do homem como quer Bakhtin². Constitutivos porque, em primeiro lugar, a escrita permite que o sujeito se coloque na corrente comunicativa do mundo letrado, assumindo-se no contexto interativo que rege as relações sociais e dá sentido à vida. Em segundo lugar porque esse posicionamento, em uma perspectiva educativa, não se dá sem a construção ética. Nesta perspectiva, a língua escrita deixa de ser um sistema estático dado pelo conjunto de regras e normas, passando a se constituir como um sistema dialógico inseparável do modo de ser, compreender e valorar o mundo. Não há enunciação linguística que não esteja impregnada de valores. Da mesma forma, parece inadmissível o amadurecimento de uma personalidade moral independente dos recursos expressivos e reflexivos da língua. Por isso, a alfabetização implica na construção de um modo de ser leitor e escritor, garantindo possibilidades de (re)criação de sentidos e valores no âmbito social. Assim como não há palavra vazia, não há exercício da cidadania pelo silenciamento da população. Daí a dimensão política da alfabetização que, como já defendia Paulo Freire³, representa a ampliação ou o resgate da voz do sujeito. A democracia pressupõe o uso competente e participativo da linguagem e o posicionamento pela palavra é indissociável da formação ética.  

¹ Ajuriaguerra (org). A escrita infantil: evolução e dificuldades. Porto Alegre: ARTED, 1998, p.17
² Bakhtin. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
³ Freire. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1983.

Beleza

José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

“A voz da beleza fala delicadamente: ela se move dentro das almas mais iluminadas.”
(Nietzche)

Se fizermos uma análise de conteúdo dos projetos político-pedagógicos das nossas escolas, concluiremos que quase todos contêm termos como: autonomia, cidadania, solidariedade… Porém, nunca vi algum PPP que contemplasse a beleza no seu texto, como valor a desenvolver na prática. O fato é surpreendente porque, ou a educação é um ato estético, ou não é educação.

Se a beleza está nos olhos de quem vê, de quem sente, ela requer um exercício de sensibilidade, mas, em um currículo que privilegia as áreas ditas nobres (Matemática, Língua Portuguesa…), as artes são remetidas para horários escusos, contraturnos e tempos livres. Se bem que possa haver arte no ensino da Matemática – que, in illo tempore, era disciplina próxima da música – a clássica aula dificilmente conseguirá que o ser sensível se revele. E, sem a vivência da beleza, somos impedidos de experienciar o amor e a liberdade, que, juntos, nos conduzem pelos caminhos da sabedoria.

A par do consumo cultural das famílias, o curricular desprezo pela área artística talvez seja responsável, por exemplo, pelo “gosto” musical dos jovens do nosso país, um “gosto” que não ultrapassa o nível da indigência. Em lugares públicos, os nossos ouvidos são impunemente agredidos por crews, “sertanojos” universitários e outras aberrações, expelidas por potentes caixas de som (cujo nível de decibéis faz tremer as viaturas que as transportam), por celulares, por mp3 e outros veículos de propagação de ruído.

Nos idos de 1970, quando partilhava Vivaldi com os meus alunos, descobri que só amamos aquilo que conhecemos. Fiquei feliz por lhes ter dado a conhecer Vivaldi e muitos outros gênios da música. E fiquei triste quando conheci o Fábio. O moço queria ser violoncelista, mas decidiu estudar Direito. Disse-me: Depois, quando eu tiver um emprego, se verá…

Escreveu Murilo Mendes que a Educação deveria formar as pessoas para serem poetas a vida inteira. Pessoas (porque as escolas são as pessoas que nelas vivem o drama educacional) que, não somente saibam fazer versos, mas que vivam em poesia, que percorram o curso da existência a poetizar os seus gestos. Porém muitas escolas tendem a formar bonsais humanos, criaturas que ignoram que quem nunca se comoveu com uma suíte de Bach para violoncelo talvez nunca tenha existido.

Deve preocupar-nos o fato de muitos professores se deixarem manipular pela praga da cultura de massa. Desde o útero, sofremos a degradação da ética e do sensível. E, para completar a tragédia – que a família inaugura e a escola amplia –, quase toda a mídia parece empenhada numa campanha de imbecilização das massas, que talvez vise manter o povo culturalmente alienado, em um estado de subdesenvolvimento estético.

Fui fazer uma palestra numa cidade do interior, mas quase não conseguia fazer ouvir a minha voz. Lá fora, a elevada potência de uma aparelhagem de som ampliava a cantoria de uma esganiçada dupla sertaneja. Liguei a TV. Eram três os canais disponíveis. Em dois deles passavam novelas. No terceiro, um programa idiota, que dá pelo nome de Big Brother. Desliguei. Fiquei a pensar na sorte de muitos dos nossos concidadãos, privados da fruição do belo. E adormeci a pensar nas escolas… Felizmente, acompanhado do concerto dos pássaros, em um fim de tarde feito da beleza que têm as pequenas coisas.

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