Arquivo mensal: outubro 2011

Observar é ver mais e melhor

Desenhar é uma atividade que os alunos apreciam bastante. Um elemento importante no desenho é a linha e suas variações (espessura, movimento, direção etc.). Neste exercício, vamos agregar a ação de observar ao registro gráfico do desenho, para refletir sobre as diferenças e semelhanças que nos unem.

Primeiras ideias
A atividade começa com uma conversa com os alunos sobre o que é observar. Como é o olhar de um observador? Professor(a), escreva na lousa os comentários da turma para ampliar as possibilidades de compreensão do conceito observação. Por exemplo, para uma resposta do tipo “observar é olhar”, insista nas características desse “olhar”: não é um olhar comum, mas, sim, um tipo de olhar curioso e atento porque está à procura de detalhes e sutilezas. Na verdade, quando olhamos um objeto cuidadosamente, desaceleramos o olhar e começamos a pensar sobre o que estamos vendo. Com esse olhar interessado em ver mais, nossa percepção reconhece características e singularidades. Fazemos comparações, isto é, estabelecemos semelhanças e diferenças com o que já conhecemos. Assim, o olhar de sempre, rápido e passageiro, dá lugar ao olhar sensível e interessado, que de fato percebe o que vê e reflete sobre essa percepção. Imagine como é enriquecedor olhar o outro com olhos sensíveis e observadores. Essa é a proposta da atividade: observar os amigos da turma sob o ponto de vista da diversidade.

Atividade coletiva
Vamos convidar os alunos a aprimorarem o olhar observador, usando o tema cabelo, que de modo especial, pode revelar origens étnicas e escolhas estéticas pessoais. Solicite que escolham um colega para observar apenas as linhas dos fios de seu cabelo… Sentados em dupla, um aluno começa o desenho enquanto o outro, de costas, permanece como “modelo”. Depois as posições se invertem. Privilegie atitudes de respeito e concentração pessoal, evitando brincadeiras desnecessárias. Na folha de papel, com lápis grafite, colorido ou canetinha, convide-os para realizar desenhos de observação. Incentive o olhar atento para perceber os diferentes tipos de linhas: onduladas, retas, quebradas, ininterruptas, com cruzamentos, pequenos traços, geométricas, sinuosas, longas, curtas, lisas e curvas, entre tantas outras possibilidades desenhadas pelos fios de cabelo ou seus respectivos acessórios para prender ou modular os fios. As linhas podem ocupar todo o espaço do papel. Não é preciso desenhar rostos ou a figura humana completa. Estamos focando no detalhe para ver mais e melhor, lembra-se?

Refletindo sobre valores
Professor(a), valorize a observação da diversidade presente na turma e o jeito especial de cada um, expondo todos os desenhos no mural da sala. Será que conseguem se identificar através dos desenhos das linhas dos fios de cabelo? Incentive a opinião dos alunos sobre os desenhos e questione-os sobre as semelhanças e diferenças observadas no exercício. Pergunte aos alunos o que aprenderam sobre a ação de observar. Será que o olhar de cada um está mais atento, curioso e sensível para perceber as singularidades do outro? O que aprenderam sobre o amigo após a atividade? Que outros desdobramentos os alunos sugerem para observar, desenhar e valorizar a diversidade do grupo.

Sistematizando
O olhar sensível e observador é curioso, sempre interessado em ver mais e melhor, inclusive as singularidades presentes no grupo. Há outras situações na sala e na escola onde os alunos observaram a diversidade enriquecendo o grupo? Convide os alunos para narrarem essas experiências, comentando o que aprenderam uns com os outros. Essas narrativas podem aquecer a produção de textos sobre as diferenças e semelhanças que nos unem, ilustrados com os desenhos das linhas dos fios de cabelo.

Se possível, apresente a letra e a música Cabelo, composição de Jorge Benjor e Arnaldo Antunes, para terminar com alegria a observação de que somos iguais e diferentes ao mesmo tempo.

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Defensores do Meio Ambiente

 

A importância da manutenção dos ecossistemas naturais, principalmente no que se refere à qualidade da água para a continuidade da vida é o valor fundamental trabalhado pelo projeto Patrulha do Verde que tem por objetivo criar um movimento de sensibilização e crescimento Intelectual dos alunos de forma interdisciplinar, consciente e dentro de uma ética de respeito para com o ambiente escolar e a comunidade.

O Projeto motiva a preservar e exercer atividades contínuas que exijam uma reflexão sobre as funções de cada integrante, possibilitando que as pessoas desenvolvam uma compreensão crítica do meio ambiente.

Acesse o blog da Patrulha do Verde: http://patrulhaemacao.zip.net/

A escola e o exercício da cidadania: dá para ensinar ética?

Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Universidade de São Paulo

 

As injustiças e desigualdades de uma sociedade, como a brasileira, provocam indignação. Para enfrentar esse quadro, a educação pode ser vista como um caminho privilegiado de intervenção social, com condições de auxiliar na construção de valores éticos e democráticos por parte dos atores sociais, objetivando, por fim, a justiça social.

Formar o sujeito ético competente para agir nesta sociedade e participar de sua vida política e pública, no entanto, não se dá somente trabalhando os direitos e os deveres. Educar em valores, como se diz hoje em dia, não pode se limitar ao trabalho educacional de construção de regras, de se estudar os direitos e deveres, pensar no que é certo e no que é errado as pessoas fazerem.

Dentro de conceitos mais amplos, para que a pessoa exerça de fato a sua cidadania, ela precisa ter determinadas competências que vão além do conhecimento e do cumprimento de leis e regras das instituições sociais. Precisamos almejar a formação e a construção do que o autor espanhol Josep Puig chama de personalidades morais[1], que eu entendo como sendo pessoas que buscam virtuosamente a felicidade e o Bem, pessoal e coletivo, e constróem sua personalidade e a excelência ética a partir de determinados valores e virtudes desejados pela cultura em que vivem. Este princípio traz uma nova maneira de se conceber a formação e a educação em valores na escola.

É dentro desta perspectiva que o currículo escolar precisa ser pensado: objetivando a construção de personalidades morais, ou melhor, pessoas que pautem seus pensamentos e ações em valores éticos e democráticos.

O desafio atual de quem acredita nestes pressupostos está em construir estratégias pedagógicas que tragam para o cotidiano das salas de aula a preocupação com a educação em valores, com a busca de solução para os problemas sociais e a tentativa de ligação dos conteúdos científicos e culturais com a vida das pessoas. Enfim, está em promover estratégias pedagógicas que levem alunos e alunas a se relacionarem com conteúdos éticos e democráticos, como aqueles presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos, convertendo-os em valores do próprio sujeito.

Com a escola assumindo um currículo baseado em projetos, mas tendo temáticas de ética e de direitos humanos como referências para todas as aulas e ações desenvolvidas no cotidiano das aulas, conseguimos que valores socialmente desejáveis impregnem o ambiente escolar de forma que professores e estudantes sejam levados a pensar, respirar e conviver todos os dias com tais preocupações. Essas temáticas, no entanto, só chegarão ao currículo se impregnarem, direcionarem, todas as aulas de línguas, matemática, história, ciências, educação física, artes etc.

Este é um eixo central para a construção de ambientes escolares onde a ética e as preocupações com democracia, cidadania e direitos humanos façam parte do dia a dia das pessoas que ali convivem. A criação desses ambientes pode se dar por meio de três tipos de ações independentes mas complementares: a) a inserção transversal e interdisciplinar de conteúdos de natureza ética no currículo das escolas; b) a introdução de sistemáticas que visam a melhoria e a democratização das relações interpessoais no dia a dia das escolas; c) uma articulação dessas ações com a família e com a comunidade onde vive a criança, de forma que tais preocupações não fiquem limitadas aos espaços, tempos e relações escolares.

Enfim, buscar modelos educativos dialógicos, pautados em valores de democracia, justiça, solidariedade e outros mais (como aqueles presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos), pressupõe introduzir no dia a dia das escolas e das ações articuladas com a comunidade a preocupação cotidiana com valores socialmente desejáveis. Esse trabalho, no entanto, precisa ser sistematizado e intencional, de forma a ser naturalizado entre todos os membros da comunidade escolar. Isso fará com que a educação em valores deixe de ser algo pontual e esporádico, que ocorre em aulas ou momentos específicos, e passe a ser um movimento de tal forma imbricado na rotina das escolas que será reconhecido como natural.

[1] PUIG, Josep (1998). A construção da personalidade moral. São Paulo: Ática.

A Turma da Monica na escola

 

Numa parceria entre o Instituto Cultural Maurício de Souza e a Controladoria-Geral da União, o Projeto Um por todos e todos por um é estrelado pela Turminha que, há mais de 50 anos, encanta os leitores com suas aventuras. Incentivando a conduta ética, o respeito mútuo e o cuidado com o meio ambiente, o Projeto envolve estudantes, educadores, família e comunidade em atitudes cidadãs. Em 2011, participam do projeto 500 escolas e cerca de 300 mil alunos do Ensino Fundamental de todo o território brasileiro. Para saber mais acesse o blog do projeto  http://projetoumportodos.blogspot.com/

Livro do Mês – Outubro

“Por que elegemos O guarda-chuva verde como livro do mês?

A caminho da escola, uma jovem chamada Young-i se depara com o preconceito e a discriminação. A leitura de O guarda-chuva verde inquieta e faz refletir sobre nossas escolhas em situações similares no dia a dia. Como defendemos a qualidade de vida para todos? O tema é atual, tratado com delicadeza e sensibilidade. O livro possui belas ilustrações e promove esperança em atitudes solidárias. Em sala de aula, possibilita a construção dos valores de respeito, responsabilidade e cidadania, entre outros.

Autonomia


José Pacheco
Mestre em educação da Criança,
ex-diretor da Escola da Ponte em Portugal

“A infância tem valor, não tanto como período de adestramento, mas como período em que se pode experimentar livremente aquela maravilhosa sensação de sermos nós próprios, que predispõe a aceitar melhor as inevitáveis limitações da vida adulta.”
(Biasutti)

Publiquei dois dicionários: um deles sobre absurdos da educação; outro, sobre utopias. Como soi dizer-se, não há dois sem três: farei um dicionário de valores. E, se todos os dicionários obedecem à ordem alfabética, comecemos pela letra A… de autonomia.

Há quase quarenta anos, partimos para a reinvenção da Escola da Ponte. Não partimos de problemas, mas daquilo que nós éramos para aquilo que queríamos ser, porque nós éramos o problema… Bem cedo compreendemos que, se reelaborássemos a nossa cultura pessoal e profissional, também estaria em nós a solução, porque um professor não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é.

Nos primórdios do projeto, realizamos um exercício simples: escrevemos num papel os dez valores que orientavam as nossas vidas. Três valores surgiam em todos os papéis: liberdade, solidariedade, responsabilidade. Porém, quando quisemos operacionalizar o valor “liberdade”, deparamo-nos com um obstáculo: não existe uma ciência da liberdade. Ela poderia ser ensinada, mas esse ensino não passaria por uma didática específica, mas por uma gramática que explicasse as transformações. O conceito que encontramos desenvolvido em termos ditos teóricos foi o de autonomia, conceito de vasto espectro semântico e com muitos apêndices: autoestima, autoconfiança, autocontrole, autodisciplina…

Autonomia não é um conceito isolado nem se define em referência ao seu oposto – define-se na contraditória complementaridade com a dependência, no quadro de uma relação social aberta. O conceito de singularidade lhe é próximo, mas situa-se aquém da autonomia, porque o reconhecimento da singularidade consiste na aceitação das diferenças interindividuais, enquanto autonomia é o primeiro elemento de compreensão do significado de “sujeito” como complexo individual. Ou, como diria Morin, a componente egocêntrica deste complexo é englobada numa subjetividade comunitária mais larga, porque ser sujeito é ser autônomo, sendo ao mesmo tempo dependente.

Desde o início, prevaleceu uma matriz axiológica bem definida no projeto da Ponte. Tudo aquilo que fizemos decorreu de valores. Não pense que tais valores foram mero ornamento de um PPP. Eles foram assumidos integral e praxeologicamente pela equipe. E levados às últimas consequências, nas mudanças, que, gradual e responsavelmente, introduzimos nas práticas, até à celebração do primeiro contrato de autonomia de que há memória no mundo da educação.

A autonomia exprime-se como produto da relação. Não existe autonomia no isolamento, mas relação EU-TU, no sentido que Buber lhe outorga. É, essencialmente, com os pais e os professores que a criança encontra os limites de um controle que lhe permite progredir numa autonomia, que é liberdade de experiência e de expressão dentro de um sistema de relações e de trocas sociais. Conclusão: a autonomia convive com a solidariedade. Certo dia, acolhemos na Ponte um jovem jogado fora de outra escola. Na primeira ida ao banheiro, o jovem urinou no cesto dos papéis. Na reunião da Assembleia de Escola, um aluno pediu a palavra e disse:

Eu faço parte da Responsabilidade do Recreio Bom, que também cuida dos banheiros. Quero dizer-vos que, nesta semana, um de nós urinou no cesto dos papéis. E quero pedir a ajuda de todos para ajudarmos um de nós a não voltar a fazer isso.

A hora e a vez da animação na sala de aula

Um desenho animado para discutir os valores de convivência

A dica  é o filme For The Birds, produzido no estúdio Pixar em 2000 e ganhador de um Oscar na categoria curta-metragem.

Você encontrao filme no DVD Curtas da Pixar, volume 1, na faixa bônus do filme Monstros S.A. ou ainda no site do estúdio, inclusive para conhecer os bastidores da produção http://www.pixar.com/shorts/ftb/index.html.

A divertida história dos pássaros é uma metáfora do que acontece entre nós quando alguém diferente quer se juntar ao grupo. Há varias brechas de acesso, como por exemplo, questões relacionadas à convivência, ao respeito, ao preconceito e à diversidade, entre outras.

Primeiras ideias:

Assista à animação antes de apresentá-la aos alunos. Reflita sobre as abordagens mais adequadas ao perfil da sua turma, considerando os aspectos já trabalhados com eles. Organize a exibição na escola, analisando se a atividade será mais motivadora, antes, durante ou depois de outras ações.

Refletindo sobre valores

Apresente o filme de curta duração aos alunos. Mesmo que eles já conheçam o filme, insista na atenção de todos. Questione os alunos sobre o que chamou atenção nesse primeiro momento: os personagens, o som, o humor… Exercite a escuta atenta para não deixar de lado nenhum comentário.

Exiba o filme novamente, destacando qual é o seu foco, o que os alunos devem observar, por exemplo: como se sentiriam no lugar do pássaro maior?  Como se sentiriam no lugar dos pássaros menores? O que fazem quando estão em grupo? Somos todos iguais? Quem é o diferente na escola? E assim por diante… Encaminhe a discussão para além do filme, refletindo com a turma situações reais e cotidianas presentes na turma, na sua escola, na sua comunidade e na sua cidade.

Atividade coletiva

Apresente a proposta para que, em pequenos grupos, os alunos reflitam sobre a amizade. Como nasce uma amizade? Como nos sentimos ao lado dos nossos amigos? Como reconhecemos os nossos amigos? Como se sentiriam se não tivessem amigos? O que fazer para manter as amizades? Como “perdemos” os amigos? Os amigos são todos iguais? Como tratamos as pessoas que não são amigas?

Em seguida, aproveite para provocar os grupos, questionando-os sobre as ações que contribuem para a boa convivência na sala de aula e na escola. Todos os grupos devem apresentar suas ideias.

Sistematizando

Como síntese da discussão, elabore com a turma os “combinados da amizade”, escrevendo-os num cartaz que deve ficar exposto na sala de aula como incentivo para a apropriação de novos comportamentos.

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